terça-feira, 8 de julho de 2014

Capítulo 6- MARATONA [1/5]

 Passei o resto da tarde concentrada no trabalho. Mark adorava verbalizar
suas ideias, o que para mim era uma ótima forma de aprendizado, e a maneira
confiante e amigável como ele lidava com seus clientes era inspiradora. Eu o
acompanhei em duas reuniões, nas quais ele conseguiu se impor de uma
maneira absolutamente natural e nem um pouco ameaçadora.

Depois partimos para uma análise das necessidades de uma fabricante de
brinquedos para bebês, procurando cortar gastos com pouco retorno e tentando
encontrar caminhos ainda não explorados, como anúncios em blogs sobre maternidade.
Fiquei feliz por meu trabalho ser capaz de desviar o foco da minha
vida pessoal, e estava ansiosa para chegar logo a hora da minha aula de krav
maga, para poder liberar uma parte daquela agressividade reprimida.

Pouco depois das quatro, o telefone da minha mesa tocou. Atendi sem demora
e senti meu coração disparar ao ouvir a voz de Joseph.
“A gente precisa sair às cinco em ponto”, ele disse, “pra chegar ao consultório
do doutor Petersen na hora marcada.”

“Ah, é.” Eu tinha esquecido que nossas sessões de terapia de casal eram às
quintas, às seis da tarde. Aquela seria a primeira.
Eu me perguntei se não seria também a última.

“Passo aí”, ele continuou em um tom bem seco, “quando chegar a hora.”
Suspirei. Estava cansada. Já bastava todo o desgaste da nossa briga. “Desculpe
ter batido em você. Eu não devia ter feito aquilo. Sinto muito.”

“Meu anjo...” Joseph bufou. “A única pergunta que interessa você não fez.”
Fechei os olhos. O fato de ele sempre saber o que se passava na minha
cabeça era bem irritante. “Enfim, isso não muda o fato de você estar guardando
segredos.”

“Com segredos a gente consegue lidar; com traição, não.”
Esfreguei a testa, sentindo uma dor de cabeça repentina. “Isso é verdade.”
“Você é a única pra mim, Demetria.” Sua voz parecia firme e resoluta.

Senti um tremor pelo corpo ao notar a fúria latente em suas palavras. Ele
ainda estava furioso por ter sua fidelidade questionada. Mas eu também estava
furiosa. “Espero você às cinco.”

Ele foi pontual, como sempre. Enquanto punha meu computador em modo
de espera e pegava minhas coisas, Joseph conversava com Mark a respeito da
campanha publicitária da vodca Kingsman. Eu o espiava de vez em quando.
Joseph tinha uma postura imponente, com seu terno escuro e uma silhueta
magra e musculosa, e projetava uma imagem de tranquilidade imperturbável,
apesar de eu já tê-lo visto em momentos de muita vulnerabilidade.

O homem por quem eu estava apaixonada era aquele, carinhoso e profundamente
emotivo. O que eu detestava era aquela fachada, suas tentativas de
se esconder de mim.

Ele se virou e viu que eu o estava observando. Consegui encontrar vestígios
do meu amado Joseph em seus olhos azuis, que por um momento transmitiram
um apelo de desejo incontrolável. Em um instante, porém, sua máscara de frieza
reapareceu. “Está pronta?”

Era mais do que óbvio que ele estava escondendo alguma coisa, e o fato de
haver tamanha distância entre nós era insuportável. Em determinados pontos,
ele não confiava em mim.

Quando passamos pela recepção, Megumi apoiou o queixo na mão e soltou
um suspiro dramático.
“Ela está gamadinha em você, Jonas”, murmurei enquanto saíamos e ele
chamava o elevador.
“Até parece”, ele esnobou. “O que ela sabe sobre mim?”
“Fiquei fazendo essa pergunta a mim mesma hoje o dia todo”, respondi em
voz baixa.
Dessa vez, tive certeza de que ele sentiu o golpe.

O dr. Lyle Petersen era um homem alto, com cabelos grisalhos bem cortados
e olhos azuis ao mesmo tempo amistosos e incisivos. Seu consultório era
decorado com muito bom gosto, em tons neutros, e a mobília era extremamente
confortável, algo que eu fazia questão de notar toda vez que ia até lá. Ainda não
estava acostumada com a ideia de que ele era meu terapeuta. Meu contato com
ele se dava apenas através da minha mãe, que era sua paciente fazia uns dois
anos.

O dr. Petersen se instalou em sua poltrona de costas altas diante do sofá
em que Joseph e eu nos sentamos. Seu olhar afiado se alternou entre nós dois,
certamente notando que estávamos mantendo certa distância e adotando uma
postura defensiva. No trajeto de carro até lá havíamos nos comportado da
mesma maneira.

Ele abriu a capa protetora de seu tablet, apanhou a caneta e perguntou:
“Vamos começar falando da causa dessa tensão entre vocês?”.

Esperei um pouco para dar a Joseph a chance de falar primeiro, mas não
me surpreendi ao constatar que ele não tomaria a iniciativa. “Bom, nas últimas
vinte e quatro horas conheci a noiva que nem sabia que Joseph tinha...”

“Ex-noiva”, ele rugiu.
“... descobri que ele só namorava morenas por causa dela...”
“Não era namoro.”
“... e a vi saindo do escritório dele nesse estado...”, completei, sacando o
celular.
“Ela estava saindo do prédio”, Joseph fez questão de dizer, “não do meu
escritório.”

Abri a fotografia que tinha tirado e entreguei o telefone para o dr.
Petersen. “E entrando no seu carro, Joseph!”

“Angus disse no caminho pra cá que ofereceu uma carona pra ela por
educação.”

“Como se ele fosse dizer outra coisa!”, rebati. “Ele é seu motorista desde
que você era criança. Claro que ia te acobertar.”
“Ah, então a coisa agora virou uma conspiração?”

“O que ele estava fazendo lá, então?”, eu o desafiei.
“Era horário de almoço.”
“E onde você foi almoçar? Posso conferir se você estava lá e ela não, e a
gente resolve de vez esse assunto.”

Joseph cerrou os dentes. “Eu já disse. Apareceu um compromisso de última
hora. Acabei não indo almoçar.”
“Esse compromisso era com quem?”

“Não era com Corinne.”
“Isso não é resposta!” Eu me virei para o dr. Petersen, que devolveu meu
telefone com toda a tranquilidade do mundo. “Subi até o escritório dele pra perguntar o que estava acontecendo e o encontrei saindo do chuveiro,
quase sem
roupa, com o sofá fora do lugar e almofadas jogadas no chão...”

“Era só uma almofada!”
“E havia uma mancha de batom vermelho na camisa dele.”
“O edifício Crossfire é sede de mais de vinte empresas”, Joseph disse com
frieza. “Ela pode ter ido visitar qualquer uma delas.”
“Ah, sim”, respondi num tom carregado de sarcasmo. “Claro.”

“Não teria sido mais fácil levá-la ao hotel?”
Respirei fundo, sentindo-me tonta. “Você ainda não desocupou aquele
quarto?”

A máscara caiu de seu rosto, revelando sinais de pânico. A confirmação de
que ele ainda tinha seu matadouro — um quarto de hotel usado exclusivamente
para trepar, um lugar ao qual eu jamais voltaria — me atingiu como um soco no
estômago, fazendo uma pontada de dor se espalhar pelo meu peito. Deixei escapar
um gemido e fechei os olhos.

“Vamos com calma”, interveio o dr. Petersen, fazendo algumas anotações
rápidas. “Precisamos voltar para o começo. Joseph, por que você não contou
para Demetria sobre Corinne?”

“Minha intenção era contar”, ele respondeu, resoluto.
“Ele nunca me conta nada”, eu disse baixinho, procurando um lenço na
minha bolsa para não ficar com a cara toda manchada de maquiagem. Por que
ele ainda mantinha aquele quarto? A única explicação era que pretendia usá-lo
com alguém que não fosse eu.

“Sobre o que vocês costumam conversar?”, questionou o dr. Petersen,
dirigindo-se a nós dois.

“A maior parte do tempo eu estou me desculpando”, resmungou Joseph.
O dr. Petersen o encarou. “Por quê?”
“Por tudo.” Ele passou a mão pelos cabelos.

“Você acha que Demetria exige demais de você?”
Senti que Joseph estava virado para mim. “Não. Ela nunca me pede nada.”
“A não ser a verdade”, corrigi, virando-me para ele.
Os olhos dele brilhavam, fazendo minha pulsação acelerar. “Nunca menti
pra você.”

“Você quer que ela peça alguma coisa, Joseph?”, perguntou o dr. Petersen.
Joseph franziu a testa.
“Pense nisso. Depois voltamos a esse assunto.” O dr. Petersen voltou sua
atenção para mim. “Essa fotografia me deixou intrigado, Demetria. Você se deparou
com uma circunstância que a maioria das mulheres considera profundamente
desgastante...”

“Não houve circunstância nenhuma”, Joseph reafirmou sem se alterar.
“Houve a percepção de uma circunstância”, especificou o dr. Petersen.
“Uma percepção claramente ridícula, considerando nossa relação.”
“Certo. Vamos falar sobre isso, então. Quantas vezes por semana vocês
fazem sexo? Em média.”

Fiquei vermelha. Olhei para Joseph, que retribuiu meu olhar com um sorrisinho
malicioso.
“Humm...” Contorci os lábios. “Muitas.”
“Todos os dias?” O dr. Petersen ergueu as sobrancelhas quando me viu
descruzar e cruzar de novo as pernas, concordando com a cabeça. “Várias vezes
por dia?”

O dr. Petersen largou o tablet no colo e olhou para Joseph. “E esse nível de
atividade sexual é seu padrão?”
“Nada no meu relacionamento com Demetria está dentro dos meus padrões,
doutor.”
“Com que frequência você fazia sexo antes de se envolver com Demetria?”

Joseph cerrou os dentes e se virou para mim.
“Pode falar”, incentivei, apesar de saber que não gostaria de responder a
essa mesma pergunta na frente dele.

Ele estendeu a mão, diminuindo a distância entre nós. Pus minha mão
sobre a dele e gostei de sentir seu aperto reconfortante. “Duas vezes por semana”,
ele disse com firmeza. “Em média.”

Fiz uma conta rápida de cabeça para tentar determinar a quantidade de
mulheres. A mão que estava no meu colo se fechou.

O dr. Petersen se recostou na poltrona. “Demetria manifestou preocupações de
infidelidade e falta de comunicação no seu relacionamento. O sexo costuma ser
usado como uma forma de resolver os desentendimentos?”

Joseph ergueu as sobrancelhas. “Antes que você venha me dizer que Demetria
está sendo vítima da minha libido desmedida, saiba que ela toma a iniciativa
tanto quanto eu. Se alguém aqui precisa se preocupar com a viabilidade de
manter o ritmo, esse alguém sou eu, por causa das especificidades da anatomia
masculina.”

O dr. Petersen me olhou, à espera de uma confirmação.
“A maioria das interações entre nós termina em sexo”, concordei, “inclusive
as brigas.”

“Antes ou depois de o conflito ser considerado superado por ambas as
partes?”
Soltei um suspiro. “Antes.”

Ele pegou a caneta e começou a escrever na tela sensível ao toque. Já havia
material para um romance inteiro depois de tudo o que tinha sido dito ali.
“Seu relacionamento tem esse caráter altamente sexualizado desde o início?”,
ele perguntou.

Concordei com a cabeça, mesmo sabendo que ele não estava olhando.
“Sentimos uma atração muito forte um pelo outro.”

“Claro.” Ele tirou os olhos da tela e abriu um sorriso simpático. “Ainda assim,
gostaria de discutir a possibilidade de abstinência enquanto...”
“Fora de questão”, interrompeu Joseph. “Se for assim, é melhor nem
começar. Sugiro que a gente se concentre nas coisas que não estão dando certo,
em vez de eliminar uma das poucas que estão.”
“Não sei se está funcionando tão bem assim, Joseph”, disse o dr. Petersen.
“Não como deveria.”
“Doutor...” Joseph apoiou um dos tornozelos sobre o joelho e se recostou
no assento em uma postura de quem estava irredutível. “O único jeito de me
fazer resistir a ela é me matando. Tente encontrar outra maneira de fazer a gente
dar certo.”

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Aviso!

Caros leitores, precisarei me ausentar do blog por um tempo curto, por motivos pessoais, postarei assim que puder, por favor me perdoem quando voltar postarei uma maratona, me desculpem de coração, bjs!

Capítulo 5

Saquei meu telefone, liguei a câmera e tirei uma foto. Com a aproximação do zoom, pude ver que ela estava retocando o batom, que estava meio borrado.
Na verdade, completamente borrado. Como depois de um beijo apaixonado. O semáforo ficou verde. Megumi e eu seguimos a multidão, chegando cada vez mais perto da mulher com quem no passado Joseph prometera se casar. Angus desceu do Bentley, foi até ela e disse algumas poucas palavras antes de abrir a porta para que entrasse. A sensação de estar sendo traída — por Angus e por Joseph — era tão intensa que perdi o ar. Minhas pernas fraquejaram.
“Ei!” Megumi me pegou pelo braço e me ajudou a me equilibrar. “Aquelas margaritas nem tinham álcool! Que fracote!”
Vi a silhueta elegante de Corinne se instalar no assento traseiro do carro de Joseph com uma elegância toda ensaiada. Cerrei os punhos, e a raiva tomou conta de mim. Com os olhos nublados pelas lágrimas de ódio, vi o Bentley se afastar do meio-fio e desaparecer na cidade.
Quando Megumi e eu entramos no elevador, apertei o botão do último andar.
“Se alguém perguntar, volto em cinco minutos”, avisei quando ela entrou no hall da Waters Field & Leaman.
“Dá um beijo nele por mim, tá bom?”, ela disse enquanto fingia se abanar com as mãos.reagiria no seu lugar.”
Consegui abrir um sorrisinho antes que as portas se fechassem e o elevador continuasse a subir. Quando chegou ao último andar, dei um passo à frente e me vi em um hall com uma decoração de muito bom gosto, inegavelmente masculina. Nas paredes de vidro opaco lia-se a inscrição INDÚSTRIAS Jonas,
uma visão amenizada pela presença de vasos de samambaias e lírios.
A recepcionista de Joseph, uma ruivinha que não costumava ser muito simpática comigo, liberou o acesso antes que eu chegasse à porta e deu um sorriso
amarelo que me irritou ainda mais. Sempre tive a impressão de que ela não gostava de mim, então não acreditei na sinceridade daquele sorriso nem por um
segundo. Ainda assim, acenei e disse “oi”. Afinal, eu não fazia o tipo barraqueira — a não ser que tivesse um bom motivo para isso.
Entrei no longo corredor que levava ao escritório de Joseph, passando antes por uma segunda recepção, onde Scott, seu secretário, controlava o acesso
à sua sala.
Ele ficou de pé quando cheguei. “Oi, Demetria”, cumprimentou, já apanhando o telefone. “Vou avisar que está aqui.”
A parede de vidro que separava o escritório de Joseph do restante do andar era transparente, mas ele podia torná-la opaca ao toque de um botão.
Naquele momento estava assim, o que fez crescer ainda mais minha inquietação.
“Ele está sozinho?”
“Sim, mas...”
Parei de prestar atenção ao que ele dizia quando atravessei a porta de vidro e adentrei os domínios de Joseph. Era uma sala enorme, com três ambientes
diferentes, cada um deles maior que o escritório inteiro do meu chefe. Ao contrário de seu apartamento, que tinha uma elegância aconchegante, seu escritório era decorado com uma paleta de cores frias — preto, cinza e branco —, quebrada apenas pela presença dos decanters de cristal colorido que decoravam a parede atrás do balcão do bar.
Pelas janelas que ocupavam três das quatro paredes, era possível ver os dois lados da cidade. A única parede sólida ficava atrás de sua enorme mesa, e era coberta de monitores sintonizados em canais de notícias do mundo inteiro.
Percorri a sala com os olhos e encontrei uma almofada caída no chão. Além disso, havia rugas no tapete, o que mostrava que o sofá havia sido deslocado de
seu local de costume — na verdade, parecia ter sido arrastado aos solavancos.
Meu coração acelerou, e senti minhas mãos começarem a suar. A terrível ansiedade que vinha sentindo até então se intensificou.
Só percebi que a porta do banheiro estava aberta quando Joseph apareceu, deixando-me sem fôlego com a beleza de seu tronco nu. Seus cabelos estavam molhados, como se tivesse acabado de sair do chuveiro, e seu pescoço e seu peito estavam vermelhos, o que indicava que ele havia feito uma boa dose de esforço físico.
Joseph ficou paralisado quando me viu, e seu olhar perdeu o brilho por um instante enquanto assumia a expressão perfeita e implacável que costumava demonstrar em público.
“Não é uma boa hora, Demetria”, ele disse, vestindo a camisa que estava pendurada em uma banqueta do bar... uma camisa diferente daquela que tinha vestido de manhã. “Estou atrasado pra uma reunião.”
Agarrei minha bolsa com força. Ser exposta a seu corpo me fez lembrar do tamanho do meu desejo por ele. Eu o amava enlouquecidamente, precisava da sua companhia como precisava respirar... o que tornava mais fácil entender
como Magdalene e Corinne se sentiam, e perceber que fariam qualquer coisa para tirá-lo de mim. “Por que você não está vestido?”
Não havia como evitar aquela pergunta. Meu corpo reagia instintivamente à visão, o que tornava ainda mais difícil conter minhas emoções. Sua camisa aberta e bem passada revelava a pele dourada que revestia seu abdome musculoso e seu peitoral perfeitamente definido. Os pelos de seu peito estreitavam à medida que desciam pelo corpo, indicando o caminho para seu pau, que naquele
momento estava escondido debaixo da calça e da cueca boxer. Só de pensar nele dentro de mim, fiquei louca de vontade.
“Sujei a camisa.” Joseph começou a se recompor, e vi seu abdome se flexionar enquanto ele se inclinava sobre o balcão do bar, onde estavam suas abotoaduras. “Preciso ir. Se precisar de alguma coisa, fale com Scott que ele resolve. Ou então espere até eu voltar. Não devo demorar mais de duas horas.”
“Por que você está atrasado?”
Ele não olhou para mim para responder: “Tive que marcar uma reunião de última hora”.
Como assim? “Você tomou banho de manhã.” Depois de fazer amor comigo durante uma hora. “Por que precisou tomar outro?”
“Por que o interrogatório?”, ele reagiu.
Eu precisava de respostas, então fui até o banheiro. A umidade lá dentro era opressiva. Ignorando a voz na minha cabeça dizendo para não buscar problemas com os quais não seria capaz de lidar, procurei sua camisa no cesto de
roupas sujas... e vi o batom vermelho estampado como uma mancha de sangue
em um dos punhos. Senti uma dor opressiva no peito.
Larguei a camisa no chão, dei meia-volta e saí. Precisava ficar o mais longe
possível de Joseph. Antes que eu vomitasse ou começasse a chorar.
“Demetria!”, ele gritou quando passei por ele. “O que foi que deu em você?”
“Vai se foder, seu filho da puta.”
“Como é?”
Minha mão já estava na maçaneta da porta quando ele me alcançou e me puxou pelo cotovelo. Eu me virei e dei um tapa na cara dele com força suficiente para virar sua cabeça e deixar a palma da minha mão ardendo.
“Puta que o pariu”, ele grunhiu antes de me agarrar pelos braços e começar a me sacudir. “Nunca mais faça isso!”
“Tira a mão de mim!” A sensação do toque de suas mãos na minha pele era mais do que eu podia suportar.
Ele deu alguns passos para trás e se afastou. “Que porra é essa?”
“Eu vi que ela estava aqui, Joseph.”
“Quem estava aqui?”
“Corinne!”
Ele franziu a testa. “Do que você está falando?”
Saquei meu celular e esfreguei a foto na cara dele. “Tenho provas.”
Os olhos de Joseph se estreitaram quando ele viu o que estava na tela, e sua testa voltou ao normal. “Provas de que, exatamente?”, ele perguntou com calma até demais.
“Ah, vai à merda.” Eu me virei para a porta e joguei o telefone dentro da bolsa. “Não vou te dar essa satisfação.”
Ele espalmou a mão contra o vidro, mantendo a porta fechada, cercou-me com o corpo e se agachou para murmurar no meu ouvido. “Vai, sim. Você vai me
dizer exatamente o que está acontecendo.”
Fechei os olhos e me dei conta de que aquela posição me lembrava da primeira vez em que estivera ali. Ele me encurralara daquela mesma maneira, seduzindo-me com maestria, o que nos levara a uma sessão de beijos apaixonados naquele mesmo sofá que estava fora de sua posição habitual.
“Uma imagem não vale mais do que mil palavras?”, eu disse entre os dentes.
“Então quer dizer que Corinne andou beijando alguém. O que isso tem a ver comigo?”
“Você está de brincadeira? Me deixa sair.”
“Não estou achando a menor graça nisso. Na verdade, nunca fiquei tão puto com uma mulher antes. Você chega aqui fazendo um monte de acusações sem pé nem cabeça, sem a menor razão...”
“Com toda a razão!” Eu me virei e me agachei para passar debaixo do braço dele, estabelecendo uma distância entre nós. Ficar perto dele era doloroso demais. “Eu nunca trairia você! Se quisesse trepar com outras pessoas, terminaria
primeiro!”
Joseph se apoiou na porta e cruzou os braços. Sua camisa estava para fora da calça, aberta no colarinho. O visual era tentador, o que só me deixou ainda mais irada.
“Você está achando que eu te traí?”, ele perguntou num tom de voz duro e implacável.
Respirei profundamente para conseguir suportar o sofrimento que senti ao imaginar Corinne naquele sofá. “O que ela estava fazendo no Crossfire pra sair naquele estado? E por que seu escritório está nesse estado? E por que você está nesse estado?”
Ele olhou para o sofá, para a almofada no chão e depois para mim. “Não sei por que Corinne estava aqui, nem por que saiu naquele estado. Não falo com ela desde ontem à noite, quando você estava comigo.”
Aquela noite parecia distante na minha memória. Queria que tudo aquilo nunca tivesse acontecido.
“Mas você não estava comigo”, argumentei. “Ela fez um charminho e disse que queria te apresentar para alguém, e você me largou lá sozinha.”
“Ai, meu Deus.” Os olhos dele faiscavam. “Vai começar tudo de novo.”
Enxuguei com raiva uma lágrima que deslizou por meu rosto.
Ele bufou. “Você acha que fui com ela porque sou incapaz de resistir e estava morrendo de vontade de me livrar de você?”
“Não sei, Joseph. Foi você que me deu as costas. Você é que precisa dizer.”
“Você me deu as costas primeiro.”
Fiquei boquiaberta. “Eu não!”
“Não o cacete. Assim que a gente chegou, você sumiu. Tive que ficar te procurando feito um idiota. Quando encontrei, você estava dançando com aquele imbecil.”
“Martin é sobrinho de Stanton!” Como Richard Stanton era meu padrasto, eu considerava Martin um membro da família.
“Nem que ele fosse um padre. Ele quer comer você.”
“Ai, meu Deus. Que absurdo! Pode parar de mudar de assunto. Você estava falando de negócios com seus sócios. Eu estava totalmente perdida ali.”
“Perdida ou não, seu lugar é do meu lado.”
Joguei a cabeça para o lado como se ele tivesse me batido. “Como é que é?”
“Como você se sentiria se no meio de um evento da Waters Field & Leaman eu desaparecesse só porque o tema da conversa era uma campanha publicitária?
E, quando me encontrasse, eu estivesse dançando agarradinho com Magdalene?”
“Eu...” Hummm... Eu não tinha pensado daquela forma.
Joseph parecia tranquilo e inabalável com seu corpo imponente encostado à porta, mas dava para sentir a raiva pulsando sob aquela superfície impassível.
Ele estava sempre inquieto, e ainda mais quando fervilhava de paixão. “Meu lugar é ao seu lado, apoiando você, e às vezes só servindo de enfeite mesmo. É um direito, um dever e um privilégio, Demetria, e o mesmo vale pra você.”
“Pensei que estava fazendo um favor deixando você sozinho.”
Ele se limitou a arquear sarcasticamente as sobrancelhas em resposta.
Cruzei os braços. “É por isso que você saiu de braço dado com Corinne?Pra me castigar?”
“Se eu quisesse castigar você, Demetria, daria uns bons tapas na sua bunda.”
Estreitei os olhos. Nem pensar.
“Sei o que você está pensando”, ele disse, curto e grosso. “Não queria que você ficasse com ciúmes de Corinne antes que pudesse me explicar. Precisava ter certeza de que ela soubesse que a coisa entre nós é séria, e que eu gostaria muito que você tivesse uma noite agradável. Só por isso fui falar com ela.”
“Você pediu pra ela não dizer nada sobre a história de vocês, né? Pra não demonstrar nenhuma intimidade. Pena que Magdalene estragou tudo.”
Talvez tenha sido justamente isso que Corinne e Magdalene tinham planejado. Corinne conhecia Joseph bem o suficiente para antecipar suas reações; não teria sido muito difícil prever como ele se comportaria ao vê-la aparecer inesperadamente em Nova York. Isso lançou uma nova luz sobre o que Magdalene havia dito ao telefone
pouco antes. Ela e Corinne estavam conversando no Waldorf quando Joseph e eu as vimos. Duas mulheres que queriam um homem que estava com uma terceira.
Nada poderia acontecer enquanto eu estivesse na jogada, e e por isso não dava para descartar a hipótese de que estivessem trabalhando juntas.
“Eu queria que você ouvisse tudo da minha boca”, ele disse, resoluto.
Resolvi deixar esse assunto de lado e me concentrar no que estava acontecendo no momento. “Acabei de ver Corinne entrar no seu carro, Joseph. Pouco
antes de subir aqui.”
Ele fez uma expressão de surpresa. “É mesmo?”
“É. Você pode me explicar isso?”
“Não, não posso.”
A mágoa e a raiva tomaram conta de mim. Não suportava mais olhar para ele. “Então sai da minha frente. Preciso voltar ao trabalho.”
Ele não se moveu. “Queria esclarecer uma coisa antes: você acha mesmo que eu trepei com ela?”
Ouvi-lo dizer aquilo me deixou arrepiada. “Não sei no que acreditar. As provas mostram que...”
“Não interessa se as supostas provas incluírem uma imagem de nós dois pelados na cama.” Ele desencostou da porta e foi chegando mais perto com
tamanha naturalidade que dei um passo atrás, surpresa. “Quero saber se você acha que trepei com ela. Se acha que eu faria isso. Que eu seria capaz. Você acha?”
Comecei a bater o pé no chão, mas não recuei nem mais um passo. “Explique por que sua camisa está manchada de batom, Joseph.”
Ele cerrou os dentes. “Não.”
“Quê?” Aquela recusa tão convicta me deixou sem reação.
“Responda minha pergunta.”
Observei bem seu rosto e o que vi foi a máscara à qual ele recorria quando estava em público, mas que até então nunca havia usado comigo. Joseph estendeu
a mão como se fosse acariciar meu queixo com os dedos, mas desistiu no último momento. Naquele exato instante ouvi seus dentes rangerem, como se ele estivesse fazendo um grande esforço para não me tocar. Sofrendo como eu
estava, fiquei aliviada por isso.
Preciso que você me explique”, sussurrei, enquanto me perguntava se tinha visto mesmo uma expressão de desespero aparecer em seu rosto. Às vezes eu fazia tanta força para acreditar em algo que acabava me agarrando a qualquer coisa para ignorar a dolorosa realidade.
“Nunca dei motivo pra você duvidar de mim.”
“Está dando agora, Joseph.” Soltei o ar com força, desanimada. Derrotada.
Ele estava bem na minha frente, mas era como se estivéssemos a quilômetros de distância. “Entendo que você precise de um tempo pra conseguir se abrir completamente comigo e abordar coisas que são dolorosas. Também já me senti assim, sabendo que precisava contar o que havia acontecido comigo, mas sem me sentir pronta. É por isso que tento não apressar nada e nem arrancar nada de você. Mas o problema é que seu segredo está me magoando, e isso muda tudo.
Você não entende?”
Soltando um palavrão bem baixinho, ele segurou meu rosto com as mãos frias. “Faço de tudo pra que você não tenha motivos pra ter ciúmes, mas gosto quando isso acontece. Gosto que lute por mim. Gosto que se importe comigo a
esse ponto. Quero que seja louca por mim. Mas possessividade sem confiança é sinônimo de inferno. Se não confia em mim, não temos por que ficar juntos.”
“A confiança não é uma via de mão única, Joseph.”
Ele respirou fundo. “Não me olhe assim.”
“Estou tentando descobrir quem você é. Onde está aquele homem que disse sem mais nem menos que queria me comer? O homem que não hesitou em dizer que não desistiria de mim quando as coisas ficaram ruins entre nós? Pensei que você fosse sempre assim sincero. Estava contando com isso. Agora...” O nó na minha garganta não permitiu que eu dissesse mais nada.
Ele estreitou os lábios, mas ficou em silêncio.
Agarrei seus punhos e tirei suas mãos de cima de mim. Eu estava desmoronando por dentro. “Não vou fugir desta vez, não precisa vir atrás de mim. Acho que você precisa pensar um pouco.”
Saí da sala. Joseph não me impediu.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Capítulo 4

Pensei na expressão no rosto dele quando eu o chupava... nos ruídos ferozes que fazia quando estava prestes a gozar...
Então levantei, confirmei que a mensagem havia sido enviada e a apaguei, depois joguei o telefone de volta na bolsa. Como estava na hora do almoço, fechei todas as janelas do computador e fui até a recepção encontrar Megumi.
“O que você quer comer?”, ela perguntou enquanto levantava, dando-me a chance de admirar seu lindo vestidinho lavanda sem mangas.
Fiquei meio sem graça, porque a pergunta fez com que eu lembrasse da mensagem que tinha acabado de mandar. “Você que sabe. Eu como de tudo.”
Passamos pela porta de vidro a caminho do elevador.
“Mal posso esperar pelo fim de semana”, disse Megumi com um suspiro ao apertar o botão com a unha postiça do dedo indicador. “Só falta um dia e meio.”
“E quais são seus planos?”
“Isso eu ainda não sei.” Ela suspirou e prendeu o cabelo atrás da orelha.
“Vou sair com um cara que nem conheço”, ela explicou, meio sem jeito.
“Ah. E você confia na pessoa que marcou o encontro?”
“É a menina que mora comigo. Espero que ele seja no mínimo bonitinho, porque sei onde ela vive e sou bem vingativa.”
Eu ainda estava rindo quando o elevador chegou e nós entramos. “Bom, isso dá uma boa margem de segurança para você.”
“Nem tanto. Ela também conheceu esse cara num encontro às cegas. Jura que ele é legal, só não faz o tipo dela.”
“Humm...”
“Então!” Megumi balançou a cabeça e olhou para o mostrador em estilo antigo que indicava a passagem do elevador pelos andares.
“Depois me conte como foi.”
“Pode deixar. Me deseje sorte.”
“Claro.” Tínhamos acabado de chegar ao saguão quando senti minha bolsa vibrar debaixo do braço. Depois de passar pela catraca, peguei o celular e senti um frio na barriga ao ver o nome de Joseph na tela. Ele resolveu me ligar em vez de responder com um torpedo erótico.
“Me dê uma licencinha”, eu disse para Megumi antes de atender.
Ela acenou com a mão como se não se importasse. “Fique à vontade.”
“Oiê”, atendi, toda simpática.
Demetria.
Quase tomei um tombo ao ouvi-lo falar naquele tom. Havia uma promessa generosa de impetuosidade em sua voz.
Fui andando mais devagar e me dei conta de que estava sem palavras só de ouvi-lo dizer meu nome com a intensidade que eu tanto desejava — um toque de ansiedade que demonstrava que aquilo que ele mais queria no mundo naquele momento era estar dentro de mim.
Cercada pela multidão que entrava e saía do edifício, fiquei parada espreitando o silêncio angustiante do outro lado da linha. Era um pedido silencioso e quase irresistível. Ele não fazia nenhum ruído. Eu não conseguia escutar nem sua respiração, mas era capaz de sentir seu desejo. Se Megumi não estivesse esperando pacientemente por mim, eu entraria no elevador e iria até o último andar sem pensar duas vezes para obedecer ao comando silencioso para que eu
cumprisse a expectativa que havia gerado.
A lembrança da vez em que o chupei no escritório tomou conta de mim e me deixou com água na boca. Eu engoli antes de responder. “Joseph...”
“Você queria minha atenção... e conseguiu. Quero ouvir você dizer essas palavras.”
Meu rosto ficou vermelho. “Não posso. Agora não. Te ligo mais tarde.”
“Se esconde atrás do pilar.”
Surpresa, olhei ao redor à procura dele. Depois lembrei que Joseph estava ligando do escritório. Percorri o saguão com os olhos em busca das câmeras de segurança. Imediatamente, senti seus olhos sobre mim, brilhando de tesão.
Fiquei toda excitada, pulsando de desejo.
“Rápido, meu anjo. Sua amiga está esperando.”
Escondi-me atrás de uma coluna, respirando profundamente.
“Agora fala. Sua mensagem me deixou de pau duro, Demetria. O que você vai fazer a respeito?”
Levei a mão à garganta, procurando desesperadamente por Megumi, que me olhava com um olhar de surpresa no rosto. Levantei o dedo pedindo mais um minutinho, depois virei de costas para ela e sussurrei: “Quero chupar você”.
“Pra quê? Só pra mexer comigo? Pra me provocar, como você está fazendo agora?” Não havia ardor em sua voz, apenas uma severidade controlada.
Eu sabia que precisava levar a sério as necessidades sexuais de Joseph.
“Não.” Levantei o rosto para a abóboda no teto que escondia a câmera de segurança mais próxima. “Pra fazer você gozar. Adoro fazer você gozar, Joseph.”
Ele expirou com força. “Um agrado, então.”
Só eu sabia o que significava para Joseph considerar o ato sexual um agrado. Para ele, o sexo sempre tinha significado dor e degradação, luxúria ou necessidade. Comigo, porém, envolvia prazer e amor. “Isso.”
“Que ótimo. Porque pra mim você é preciosa, Demetria, e nossa relação também.
Mesmo essa necessidade de foder o tempo todo é inestimável pra mim,porque envolve sentimento.”
Apoiei todo o meu peso à coluna, admitindo para mim mesma que havia voltado a incorrer em um velho e destrutivo hábito — usar o sexo para tirar o foco de minhas inseguranças. Se Joseph estivesse babando de tesão por mim,não estaria perseguindo outra. Como ele conseguia me entender tão bem?
“Sim”, suspirei, fechando os olhos. “Envolve sentimento.”
Houve um tempo em que eu recorria ao sexo em busca de afeto, confundia um desejo momentâneo com um envolvimento verdadeiro. Por isso passei a insistir em estabelecer alguma intimidade antes de dormir com um homem.
Nunca mais queria sair da cama de alguém me sentindo suja e sem valor.
E eu tinha certeza de que não queria banalizar o que estava vivendo com Joseph só por causa de um medo irracional de perdê-lo.
Quando me dei conta disso, perdi o equilíbrio. Senti meu estômago embrulhar, uma sensação de que algo terrível ia acontecer.
“Você pode ter o que quiser depois do trabalho, meu anjo.” Seu tom de voz se tornou mais grave, mais áspero. “Enquanto isso, tenha um bom almoço com sua amiga. Vou estar pensando em você. E na sua boca.”
“Eu te amo, Joseph.”
Precisei respirar fundo e me recompor antes de me juntar de novo a
Megumi. “Desculpe.”
“Está tudo bem?”
“Está, sim.”
“Continua tudo bem entre você e Joseph Jonas?” Ela me olhou com um sorrisinho no rosto.
“Humm...” E como. “Não tenho do que reclamar.” Eu queria muito poder falar sobre o assunto. Queria ser capaz de me destravar e confessar tudo o que sentia por ele. De dizer que pensava nele o tempo todo, que enlouquecia ao seu toque, que sentir o quanto ele sofria me dilacerava.
Mas eu não podia. De jeito nenhum. Ele era visado demais, conhecido demais.
Fofocas sobre sua vida particular valiam uma fortuna. Não podia me
arriscar.
“Não tem do que reclamar mesmo”, concordou Megumi. “Ele é tudo. Você já o conhecia antes de vir trabalhar aqui?”
“Não. Mas talvez a gente tenha se esbarrado antes.” Por causa do nosso passado em comum. Minha mãe colaborava com muitas entidades de apoio a crianças vítimas de abuso, assim como Joseph. Era muito provável que um tenha cruzado o caminho do outro em algum momento. Imagino como teria sido esse encontro — ele com alguma morena deslumbrante e eu com Cary. Será que à distância teríamos sentido o mesmo tipo de atração visceral um pelo outro que
ocorrera no ambiente mais íntimo do saguão do Crossfire?
Ele me desejou desde o primeiro momento em que me viu na rua.
“Imaginei.” Megumi atravessou a porta giratória do saguão. “Li que as
coisas estão ficando sérias entre vocês dois”, ela disse quando cheguei à calçada.
“Então achei que já se conhecessem há mais tempo.”
“Não acredite em tudo que sai nesses sites de fofoca.”
“Então a coisa não é tão séria assim?”
“Eu não diria isso.” As coisas eram sérias até demais às vezes. Brutalmente sérias. Dolorosamente sérias.
Ela balançou a cabeça. “Opa. Acho que estou sendo muito enxerida. Desculpe. Tenho um fraco por uma fofoquinha. E por homens maravilhosos como Joseph Jonas. Nem consigo imaginar como é sair com alguém que exala tanta energia sexual. Só me diz se ele é bom de cama, vai.”
Sorri. Como era bom poder conversar com uma garota. Não que Cary não soubesse apreciar o valor de um cara gostoso, mas não havia nada como um bom papo entre duas mulheres. “Não tenho do que reclamar.”
“Sua sortuda!” Ela bateu o ombro no meu, para mostrar que estava brincando, e completou: “E aquele seu colega de apartamento? Pelas fotos que vi, é um gato. Ele é solteiro? Não quer me apresentar?”.
Eu me virei para ela e encolhi os ombros. Aprendi do jeito mais difícil que era melhor nem tentar incentivar uma relação entre Cary e um amigo ou conhecido meu. Era fácil demais se apaixonar por ele, o que levava a muitos corações partidos, já que Cary não era capaz de se entregar da mesma forma. “Nem sei se ele está solteiro ou não. As coisas estão meio... complicadas no momento.”
“Bom, se surgir uma oportunidade, eu não me oponho. Mas foi só um
comentário. Você gosta de taco?”
“Adoro.”
“Conheço um lugar ótimo a uns dois quarteirões daqui. Vamos lá.”
Eu estava me sentindo ótima ao voltar do almoço com Megumi. Quarenta minutos de fofocas, comentários sobre os caras que cruzavam nosso caminho e três excelentes tacos de carne assada eram o que eu precisava para renovar o ânimo.
E ainda estávamos voltando dez minutos mais cedo, o que era ótimo,
porque eu não estava sendo muito pontual nos últimos dias, apesar de Mark nunca ter reclamado.
A cidade pulsava ao nosso redor — táxis e pessoas indo e vindo em meio ao calor e à umidade, sempre com pressa, para dar conta das tarefas irrealizáveis do dia a dia. Eu observava toda aquela gente sem o menor pudor, atenta a tudo e a todos.
Homens de terno caminhavam lado a lado com moças de vestido florido e rasteirinha. Mulheres em terninhos de alta-costura e sapatos de quinhentos dólares abriam caminho entre vendedores de cachorro-quente e camelôs. O ambiente eclético de Nova York era o paraíso para mim. Ali, eu me sentia mais viva e energizada do que em qualquer outro lugar em que tenha morado.
Estávamos esperando para atravessar a rua no semáforo em frente ao Crossfire quando meu olhar foi imediatamente atraído pelo Bentley estacionado no meio-fio. Joseph devia ter acabado de chegar do almoço. Instintivamente, comecei a pensar nele sentado em seu carro no dia em que nos conhecemos, observando-me enquanto eu absorvia a beleza imponente daquele prédio. Fiquei
trêmula só de imaginar...
Foi quando meu sangue gelou.
Uma morena estonteante saiu pela porta giratória e se deteve, permitindo que eu a enxergasse direitinho — o modelo de mulher ideal para Joseph, conscientemente ou não. Era a mulher que tinha monopolizado sua atenção quando apareceu no evento do Waldorf-Astoria. Uma mulher que, pela autoconfiança e influência que exercia sobre Joseph, despertava minhas inseguranças mais profundas.
Corinne Giroux parecia poderosa e confiante em seu vestido creme e seus sapatos cereja de salto. Ela alisou com uma das mãos seus longos cabelos escuros, que não pareciam tão perfeitos como na noite anterior. Na verdade, estavam até um tanto desalinhados. Depois passou os dedos em torno da boca, como se estivesse limpando os lábios.
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 Bom, daqui pra frente a estória vai pegar fogo.