sexta-feira, 27 de junho de 2014
Profundamente sua!
O Doce e perigoso limite da obsessão...
Detalhes perturbadores da história de Joseph são revelados,e Demetria se defronta com a reaparição de um fantasma,enquanto os dois lutam para construir um futuro juntos.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Aviso!
Bom,esta foi o fim da primeira temporada de "toda sua",espero sinceramente que tenham gostado da estória.A segunda temporada será muito mais dramática,não será tão hot como a primeira,terá muita confusão e segredos,postarei o mais breve possível,beijos a todos os leitores.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Capítulo 30
Joseph jogou os paninhos sujos de maquiagem no lixo, depois pegou uma toalha
pra enxugar a poça que havia se formado sob seus pés. Para meu extremo deleite, ele
começou a tirar suas roupas molhadas.
Deliciada com o que estava vendo, comentei: “Você se sente culpado porque ela
ainda é apaixonada por você”.
“Pois é, conheço o marido dela. É um cara legal, e era louco por ela, pelo menos até
descobrir que Corinne não sentia o mesmo por ele e tudo ir por água abaixo.”
Joseph olhou para mim enquanto tirava a camisa. “Eu não conseguia entender por
que ele ficou tão abalado com isso. Estava casado com a mulher que queria, vivendo em
outro país, então qual era o problema? Agora eu sei. Se você fosse apaixonada por outro
homem, Demetria, isso me mataria. Mesmo que você estivesse comigo e não com ele. Mas, ao contrário de Giroux, eu não abriria mão de você. Mesmo que não fosse toda minha, seria pelo menos um pouco, e eu já me daria por satisfeito com isso.”
Entrelacei meus dedos. “É isso que me assusta, Joseph. Você não sabe dar valor a si
mesmo.”
“Na verdade, sei, sim. Doze bilhões de...”
“Pare com isso.” Minha cabeça começou a girar, e eu apertei os olhos com os dedos.
“Não é nenhuma surpresa que as mulheres se apaixonem por você. Sabia que Magdalene
deixou o cabelo crescer só pra ficar parecida com Corinne?”
Ele tirou a calça e franziu a testa para mim. “Por quê?”
Suspirei diante daquela falta de noção. “Porque ela acha que você é apaixonado por
Corinne.”
“Então está achando errado.”
“Está mesmo? Corinne me disse que vocês conversam quase todos os dias.”
“Não exatamente. Na maioria das vezes não posso atender. Você sabe que sou uma
pessoa ocupada.” Seu olhar voltou a se acender da maneira como eu estava acostumada a
ver. Logo percebi que ele estava pensando nas vezes em que estava ocupado comigo.
“Isso é loucura, Joseph. Ela ligar todo dia. É assédio.” O que me fez lembrar o
comentário de Corinne de que ele era possessivo com ela da mesma maneira como era
comigo. Isso me incomodou terrivelmente.
“Aonde você está querendo chegar com isso?”, ele perguntou em um tom de voz de
quem estava achando graça naquilo tudo.
“Você não entende? As mulheres ficam malucas por sua causa porque você é o
máximo. É a sorte grande. Se uma mulher não puder ter você, sabe que vai ter que se
contentar sempre com menos. Por isso não aceitam essa ideia. E ficam imaginando
maneiras malucas de chamar sua atenção.”
“A não ser a única que eu realmente quero”, ele rebateu, sarcástico. “Essa está
sempre imaginando um jeito de fugir de mim.”
Eu me mantive impassível enquanto apreciava sua nudez diante de mim. “Me
responda uma coisa, Joseph. Por que você me quer, se pode escolher alguém perfeito pra você? E não estou atrás de elogios, nem garantias ou algo do tipo. Só quero uma resposta sincera.”
Ele me pegou no colo e me levou até o quarto. “Demetria, se você não parar de pensar em nós dois como uma coisa temporária, vou dar uns tapas na sua bunda, e de um jeito que você vai adorar.”
Ele me sentou em uma poltrona e começou a remexer nas minhas gavetas.
Vi quando pegou um conjunto de lingerie, minha calça de ioga e um top. “Esqueceu que com você eu sempre durmo sem roupa?”
“Não vamos dormir aqui.” Ele me encarou. “Não confio que Cary não vá trazer
mais idiotas drogados pra cá, e quando cair no sono vou estar chumbado por causa do
remédio, então não vou poder proteger você. Vamos pra minha casa.”
Olhei para baixo, para minhas mãos retorcidas, lembrando que poderia precisar de
proteção contra ele também. “Já passei por isso com Cary antes, Joseph. Não posso me
esconder na sua casa e simplesmente torcer pra ele sair dessa. Ele precisa de mim, e eu não tenho ficado por perto ultimamente.”
“Demetria.” Joseph me entregou as roupas e se agachou diante de mim. “Sei que você
precisa ajudar Cary. Vamos pensar nisso amanhã.”
Peguei seu rosto entre as mãos. “Obrigada.”
“Mas eu também preciso de você”, ele disse baixinho.
“Nós precisamos um do outro.”
Ele ficou de pé, foi até a cômoda, abriu as gavetas reservadas para ele e pegou
algumas roupas.
Comecei a me trocar. “Olha só...”
Ele pôs o jeans de cintura baixa. “O quê?”
“Estou me sentindo bem melhor depois dessa nossa conversa, mas Corinne continua
sendo um problema para mim.” Fiz uma pausa para me vestir da cintura para cima. “Você
precisa cortar as esperanças dela pela raiz, Joseph. Precisa superar esse seu sentimento de culpa e começar a manter Corinne à distância.”
Ele sentou na beira da cama para colocar as meias. “Ela é minha amiga, Demetria, e está
passando por um momento difícil. Seria uma crueldade cortar relações com ela agora.”
“Pense bem, Joseph. Você não é o único que teve relacionamentos no passado, e
está estabelecendo um precedente de como lidar com eventuais reaparições. Estou
moldando meu pensamento a partir de suas atitudes.”
Ele se levantou e fechou a cara. “Você está me ameaçando.”
“Prefiro ver como um pedido de concessão. Relacionamentos são vias de mão
dupla. Ela tem outros amigos. Pode encontrar um ombro muito mais apropriado para suas
crises.”
Pegamos o que precisávamos e voltamos para a sala. Vi toda a bagunça que havia
ficado para trás — um sutiã verde-água debaixo da mesa, respingos de sangue no meu sofá
claro — e desejei que Cary ainda estivesse ali para me ouvir.
“Cuido disso amanhã”, falei entre os dentes, com o maxilar cerrado de raiva e
preocupação. “Que saco, eu deveria ter dado um jeito nele quando tive a chance. Deveria ter deixado ele trancado no quarto até conseguir pensar de novo.”
Joseph acariciou minhas costas para me acalmar. “Melhor fazer isso amanhã,
quando ele estiver de ressaca e sem ninguém por perto. Costuma dar mais certo assim.”
Angus estava à nossa espera quando descemos. Eu estava prestes a entrar na
limusine quando Joseph soltou um palavrão e me deteve.
“Que foi?”, perguntei.
“Esqueci uma coisa.”
“Eu te dou as chaves e você sobe pra pegar.” Comecei a remexer na mochila que
Joseph estava segurando, onde estava minha bolsa.
“Não precisa, tenho uma cópia.” Ele abriu um sorriso na maior cara lavada quando a surpresa se estampou em meu rosto. “Fiz um jogo de chaves pra mim antes de devolver as suas.”
“Está falando sério?”
“Se você tivesse prestado atenção”, ele beijou minha cabeça, “teria visto que agora
você também tem uma cópia das chaves da minha casa.”
Fiquei observando enquanto ele passava pelo porteiro e voltava para o prédio.
Lembrei de todo o tormento que haviam sido os quatro dias que tínhamos passado longe
um do outro, e da dor que senti ao receber aquele envelope com as chaves.
E, durante esse tempo todo, a chave para ficar sozinha com ele estava nas minhas
mãos.
Balançando a cabeça, olhei ao redor, para minha nova cidade, adorando tudo aquilo
e me sentindo grata por toda a felicidade tempestuosa que havia encontrado depois de me instalar ali.
Mas Joseph e eu ainda tínhamos muito trabalho pela frente. Por mais que nos
amássemos, não havia como garantir que seríamos capazes de superar nossos traumas. Pelo menos estávamos conseguindo estabelecer uma comunicação, estávamos sendo sinceros um com o outro, e só Deus sabia como era difícil para nós dois deixar certas coisas passarem batidas.
Joseph reapareceu ao mesmo tempo em que dois poodles enormes e muito bem
cuidados saíam com sua dona igualmente emperiquitada.
Assim que o carro arrancou, Joseph me pôs no colo e me abraçou forte. “Tivemos
uma noite difícil, mas conseguimos superar.”
“Verdade, conseguimos.” Jogando a cabeça para trás, ofereci minha boca para um
beijo. Ele me deu um bem gostoso e demorado — uma singela reafirmação de nossa
relação complicada, enlouquecedora, necessária e insubstituível.
Agarrando sua nuca, passei meus dedos por seus cabelos sedosos. “Mal posso
esperar a hora de ir pra cama.”
Ele soltou um rugido sexy e atacou meu pescoço com beijos e mordidas, mandando
para longe nossos traumas e seus fantasmas.
Pelo menos por um tempinho...
pra enxugar a poça que havia se formado sob seus pés. Para meu extremo deleite, ele
começou a tirar suas roupas molhadas.
Deliciada com o que estava vendo, comentei: “Você se sente culpado porque ela
ainda é apaixonada por você”.
“Pois é, conheço o marido dela. É um cara legal, e era louco por ela, pelo menos até
descobrir que Corinne não sentia o mesmo por ele e tudo ir por água abaixo.”
Joseph olhou para mim enquanto tirava a camisa. “Eu não conseguia entender por
que ele ficou tão abalado com isso. Estava casado com a mulher que queria, vivendo em
outro país, então qual era o problema? Agora eu sei. Se você fosse apaixonada por outro
homem, Demetria, isso me mataria. Mesmo que você estivesse comigo e não com ele. Mas, ao contrário de Giroux, eu não abriria mão de você. Mesmo que não fosse toda minha, seria pelo menos um pouco, e eu já me daria por satisfeito com isso.”
Entrelacei meus dedos. “É isso que me assusta, Joseph. Você não sabe dar valor a si
mesmo.”
“Na verdade, sei, sim. Doze bilhões de...”
“Pare com isso.” Minha cabeça começou a girar, e eu apertei os olhos com os dedos.
“Não é nenhuma surpresa que as mulheres se apaixonem por você. Sabia que Magdalene
deixou o cabelo crescer só pra ficar parecida com Corinne?”
Ele tirou a calça e franziu a testa para mim. “Por quê?”
Suspirei diante daquela falta de noção. “Porque ela acha que você é apaixonado por
Corinne.”
“Então está achando errado.”
“Está mesmo? Corinne me disse que vocês conversam quase todos os dias.”
“Não exatamente. Na maioria das vezes não posso atender. Você sabe que sou uma
pessoa ocupada.” Seu olhar voltou a se acender da maneira como eu estava acostumada a
ver. Logo percebi que ele estava pensando nas vezes em que estava ocupado comigo.
“Isso é loucura, Joseph. Ela ligar todo dia. É assédio.” O que me fez lembrar o
comentário de Corinne de que ele era possessivo com ela da mesma maneira como era
comigo. Isso me incomodou terrivelmente.
“Aonde você está querendo chegar com isso?”, ele perguntou em um tom de voz de
quem estava achando graça naquilo tudo.
“Você não entende? As mulheres ficam malucas por sua causa porque você é o
máximo. É a sorte grande. Se uma mulher não puder ter você, sabe que vai ter que se
contentar sempre com menos. Por isso não aceitam essa ideia. E ficam imaginando
maneiras malucas de chamar sua atenção.”
“A não ser a única que eu realmente quero”, ele rebateu, sarcástico. “Essa está
sempre imaginando um jeito de fugir de mim.”
Eu me mantive impassível enquanto apreciava sua nudez diante de mim. “Me
responda uma coisa, Joseph. Por que você me quer, se pode escolher alguém perfeito pra você? E não estou atrás de elogios, nem garantias ou algo do tipo. Só quero uma resposta sincera.”
Ele me pegou no colo e me levou até o quarto. “Demetria, se você não parar de pensar em nós dois como uma coisa temporária, vou dar uns tapas na sua bunda, e de um jeito que você vai adorar.”
Ele me sentou em uma poltrona e começou a remexer nas minhas gavetas.
Vi quando pegou um conjunto de lingerie, minha calça de ioga e um top. “Esqueceu que com você eu sempre durmo sem roupa?”
“Não vamos dormir aqui.” Ele me encarou. “Não confio que Cary não vá trazer
mais idiotas drogados pra cá, e quando cair no sono vou estar chumbado por causa do
remédio, então não vou poder proteger você. Vamos pra minha casa.”
Olhei para baixo, para minhas mãos retorcidas, lembrando que poderia precisar de
proteção contra ele também. “Já passei por isso com Cary antes, Joseph. Não posso me
esconder na sua casa e simplesmente torcer pra ele sair dessa. Ele precisa de mim, e eu não tenho ficado por perto ultimamente.”
“Demetria.” Joseph me entregou as roupas e se agachou diante de mim. “Sei que você
precisa ajudar Cary. Vamos pensar nisso amanhã.”
Peguei seu rosto entre as mãos. “Obrigada.”
“Mas eu também preciso de você”, ele disse baixinho.
“Nós precisamos um do outro.”
Ele ficou de pé, foi até a cômoda, abriu as gavetas reservadas para ele e pegou
algumas roupas.
Comecei a me trocar. “Olha só...”
Ele pôs o jeans de cintura baixa. “O quê?”
“Estou me sentindo bem melhor depois dessa nossa conversa, mas Corinne continua
sendo um problema para mim.” Fiz uma pausa para me vestir da cintura para cima. “Você
precisa cortar as esperanças dela pela raiz, Joseph. Precisa superar esse seu sentimento de culpa e começar a manter Corinne à distância.”
Ele sentou na beira da cama para colocar as meias. “Ela é minha amiga, Demetria, e está
passando por um momento difícil. Seria uma crueldade cortar relações com ela agora.”
“Pense bem, Joseph. Você não é o único que teve relacionamentos no passado, e
está estabelecendo um precedente de como lidar com eventuais reaparições. Estou
moldando meu pensamento a partir de suas atitudes.”
Ele se levantou e fechou a cara. “Você está me ameaçando.”
“Prefiro ver como um pedido de concessão. Relacionamentos são vias de mão
dupla. Ela tem outros amigos. Pode encontrar um ombro muito mais apropriado para suas
crises.”
Pegamos o que precisávamos e voltamos para a sala. Vi toda a bagunça que havia
ficado para trás — um sutiã verde-água debaixo da mesa, respingos de sangue no meu sofá
claro — e desejei que Cary ainda estivesse ali para me ouvir.
“Cuido disso amanhã”, falei entre os dentes, com o maxilar cerrado de raiva e
preocupação. “Que saco, eu deveria ter dado um jeito nele quando tive a chance. Deveria ter deixado ele trancado no quarto até conseguir pensar de novo.”
Joseph acariciou minhas costas para me acalmar. “Melhor fazer isso amanhã,
quando ele estiver de ressaca e sem ninguém por perto. Costuma dar mais certo assim.”
Angus estava à nossa espera quando descemos. Eu estava prestes a entrar na
limusine quando Joseph soltou um palavrão e me deteve.
“Que foi?”, perguntei.
“Esqueci uma coisa.”
“Eu te dou as chaves e você sobe pra pegar.” Comecei a remexer na mochila que
Joseph estava segurando, onde estava minha bolsa.
“Não precisa, tenho uma cópia.” Ele abriu um sorriso na maior cara lavada quando a surpresa se estampou em meu rosto. “Fiz um jogo de chaves pra mim antes de devolver as suas.”
“Está falando sério?”
“Se você tivesse prestado atenção”, ele beijou minha cabeça, “teria visto que agora
você também tem uma cópia das chaves da minha casa.”
Fiquei observando enquanto ele passava pelo porteiro e voltava para o prédio.
Lembrei de todo o tormento que haviam sido os quatro dias que tínhamos passado longe
um do outro, e da dor que senti ao receber aquele envelope com as chaves.
E, durante esse tempo todo, a chave para ficar sozinha com ele estava nas minhas
mãos.
Balançando a cabeça, olhei ao redor, para minha nova cidade, adorando tudo aquilo
e me sentindo grata por toda a felicidade tempestuosa que havia encontrado depois de me instalar ali.
Mas Joseph e eu ainda tínhamos muito trabalho pela frente. Por mais que nos
amássemos, não havia como garantir que seríamos capazes de superar nossos traumas. Pelo menos estávamos conseguindo estabelecer uma comunicação, estávamos sendo sinceros um com o outro, e só Deus sabia como era difícil para nós dois deixar certas coisas passarem batidas.
Joseph reapareceu ao mesmo tempo em que dois poodles enormes e muito bem
cuidados saíam com sua dona igualmente emperiquitada.
Assim que o carro arrancou, Joseph me pôs no colo e me abraçou forte. “Tivemos
uma noite difícil, mas conseguimos superar.”
“Verdade, conseguimos.” Jogando a cabeça para trás, ofereci minha boca para um
beijo. Ele me deu um bem gostoso e demorado — uma singela reafirmação de nossa
relação complicada, enlouquecedora, necessária e insubstituível.
Agarrando sua nuca, passei meus dedos por seus cabelos sedosos. “Mal posso
esperar a hora de ir pra cama.”
Ele soltou um rugido sexy e atacou meu pescoço com beijos e mordidas, mandando
para longe nossos traumas e seus fantasmas.
Pelo menos por um tempinho...
Capítulo 29
“Com licença.” Saí da mesa à procura de Joseph. Vi que estava no bar e fui até lá.
Ele estava agradecendo ao barman com dois copos na mão quando o abordei.
Peguei meu copo e virei em um gole, sentindo meus dentes doerem ao toque dos cubos de gelo.
“Demetria...” Havia um leve tom de reprimenda em sua voz.
“Estou indo embora”, eu disse sem rodeios, passando ao seu lado para deixar o copo
vazio no balcão. “Não considero isso uma fuga, porque estou avisando com antecedência, e você pode ir comigo se quiser.”
Ele bufou, deixando bem claro que entendia o motivo do mau humor. Ele sabia que
eu sabia. “Não posso ir embora agora.”
Virei as costas.
Ele me pegou pelo braço. “Não vou conseguir ficar se você for embora. Você não
tem por que ficar chateada, Demetria.”
“Ah, não?” Olhei para o ponto em que sua mão me agarrava. “Eu avisei que era
ciumenta. E, desta vez, você me deu uma boa razão pra isso.”
“Só porque me avisou você acha que pode dar uma de ridícula?” Seu rosto estava
relaxado e seu tom de voz, calmo e controlado. Ninguém seria capaz de notar à distância a tensão que havia entre nós, mas seus olhos diziam tudo. Brilhavam de fúria e luxúria. Ele era muito bom em combinar as duas coisas.
“Ridícula, é? E o que você fez com Daniel, o instrutor da academia? Ou com
Martin, um membro da minha família?” Cheguei mais perto e sussurrei: “Eu nunca trepei
com nenhum dos dois, muito menos concordei em me casar com eles! E pode ter certeza de que não converso todo santo dia com nenhum deles!”.
Em um gesto abrupto, ele me agarrou pela cintura e me puxou para perto. “Você
precisa ser comida agora mesmo”, ele cochichou no meu ouvido, mordendo a ponta da
minha orelha. “Não devia ter feito você esperar.”
“Vai ver você fez tudo de caso pensado”, rebati. “Estava se poupando pro caso de
uma velha chama se acender e você preferir trepar com outra pessoa.”
Joseph virou sua bebida e depois me segurou pela cintura com toda a força antes de
me conduzir até a porta. Ele sacou o celular do bolso e chamou a limusine. Quando
chegamos à rua, o carro já estava lá. Joseph me empurrou porta adentrou e ordenou para
Angus: “Dê umas voltas no quarteirão até eu mandar parar”.
Ele entrou logo depois de mim, tão perto que eu conseguia sentir sua respiração
contra as minhas costas nuas. Pulei para o outro assento, determinada a manter distância
dele...
“Pare com isso”, ele gritou.
Caí de joelhos no assoalho acarpetado, com a respiração acelerada. Eu poderia
correr até o fim do mundo, mas ainda assim não ia escapar do fato de que Corinne Giroux
era uma companhia muito melhor para Joseph do que eu. Era calma e elegante, uma
presença tranquilizadora até para mim — a pessoa que estava surtando ao tomar
conhecimento de sua existência. Meu pior pesadelo.
Sua mão se enrolou em meus cabelos soltos, prendendo-me. Suas pernas abertas
envolveram as minhas, puxando-me com tanta força que minha cabeça encostou em seu
ombro. “Vou fazer agora uma coisa de que nós dois precisamos, Demetria. Vamos trepar até essa tensão se dissipar o suficiente para podermos voltar para o jantar. E não se preocupe com Corinne, porque, enquanto ela fica lá dentro, vou estar aqui, dentro de você.”
“Está bem”, sussurrei, passando a língua por meus lábios secos.
“Você esqueceu quem é que manda aqui, Demetria”, ele falou asperamente. “Abri mão
do controle por sua causa. Cedi e ajustei meu comportamento pra você. Faço qualquer coisa pra deixar você feliz. Mas não aceito cabresto nem chicote. Não confunda minha boa vontade com fraqueza.”
Engoli em seco, com o sangue fervendo por ele. “Joseph...”
“Estique as mãos e se segure na barra debaixo da janela. Não solte até eu mandar,
entendeu?”
Fiz conforme ele mandou, segurando a barra com revestimento de couro. Quando
minhas mãos se fixaram ali, meu corpo voltou à vida, fazendo-me perceber o quanto de fato precisava daquilo. Ele me conhecia tão bem, meu amor.
Enfiando as mãos sob a parte de cima do meu vestido, Joseph agarrou meus seios
inchados e sedentos. Quando apertou e girou meus mamilos, minha cabeça se jogou para
trás em sua direção, com a tensão à flor da pele.
“Minha nossa.” Ele esfregou a boca contra a minha têmpora. “É tão perfeito quando
você se entrega assim pra mim... quando se abre todinha, como se dependesse disso pra
viver.”
“Me fode”, implorei, sentindo uma necessidade aguda dessa ligação entre nós. “Por
favor.”
Ele soltou meu cabelo, enfiou a mão por baixo do meu vestido e arrancou a minha
calcinha. Seu paletó passou voando por mim e aterrissou no assento; depois suas mãos
encontraram o caminho até o meio das minhas pernas. Ele soltou um grunhido ao sentir que eu estava toda molhada. “Você foi feita pra mim, Demetria. Não consegue ficar muito tempo sem me sentir dentro de você.”
Ainda assim ele continuava me provocando, explorando-me com os dedos,
espalhando a umidade por meu clitóris e meus lábios vaginais. Depois enfiou dois dedos
em mim e os abriu como uma tesoura, preparando-me para receber seu pau grande e grosso.
“Você me quer, Joseph?”, perguntei ofegante, louca para me mexer ao ritmo de
seus dedos, mas impedida pela distância por ter que permanecer agarrada à barra de apoio.
“Mais do que o ar que eu respiro.” Seus lábios se mexiam perto do meu pescoço,
por cima do meu ombro, e o calor de sua língua aveludada passava sedutoramente por
minha pele. “Também não consigo ficar sem você, Demetria. Você é meu vício... minha
obsessão...”
Seus dentes se encravaram de leve na minha pele, combinando seu desejo animal
com um ruído brutal de desejo. Enquanto ele me penetrava com os dedos, sua outra mão
massageava meu clitóris, fazendo-me gozar de novo e de novo com aquela estimulação
simultânea.
“Joseph!”, gritei quase sem fôlego quando meus dedos úmidos começaram a
escorregar da barra revestida em couro.
Suas mãos me soltaram e ouvi o ruído excitante de seu zíper baixando. “Pode soltar
e deitar com as pernas abertas.”
Deitei-me e ofereci o meu corpo para ele tremendo de ansiedade. Joseph me olhou
nos olhos, e seu rosto se iluminou com os faróis de um carro que passava.
“Não tenha medo.” Ele subiu em cima de mim, soltando seu peso com um cuidado
escrupuloso.
“Estou com tesão demais pra sentir medo.” Eu o agarrei e lancei meu corpo para
cima a fim de ficar mais perto do dele. “Quero você.”
A cabeça de seu pau se esfregava nos lábios do meu sexo. Flexionando os quadris,ele entrou em mim, expirando o ar junto comigo em uma sincronia marcante. Fiquei toda
mole em cima do assento, com os dedos apoiados contra sua cintura estreita.
“Eu te amo”, sussurrei, observando seu rosto enquanto ele começava a se mexer.
Cada pedacinho da minha pele queimava como se eu estivesse sob o sol, e meu peito estava tão apertado que a respiração ficava difícil. “E preciso de você, Joseph.”
“Eu sou seu”, ele murmurou enquanto seu pau entrava e saía. “Não poderia ser mais
seu.”
Estremeci e fiquei toda tensa. Meus quadris se remexiam sem cessar na direção de
suas estocadas ritmadas. Cheguei ao clímax com um grito abafado, toda arrepiada enquanto o orgasmo se espalhava por meu sexo, ordenhando seu membro até ele soltar um grunhido e começar a meter com ainda mais força.
“Demetria.”
Eu me mexia de encontro a suas estocadas ferozes, incitando-o a continuar. Ele me
agarrou com força e começou a se mover mais rápido. Minha cabeça se sacudia de um lado para o outro e eu gemia sem o menor pudor, adorando aquela sensação dele dentro de mim, aquela impressão volátil de ser possuída e brutalmente saciada.
Estávamos malucos um pelo outro, trepando como animais selvagens, e eu estava
tão em sintonia com nosso desejo furioso que pensei que ia morrer ao sentir mais um
orgasmo começar a crescer dentro de mim.
“Você é tão bom nisso, Joseph. Tão bom...”
Ele agarrou minha bunda e me puxou para trás contra sua investida violenta,
chegando até o fundo, expulsando um gemido esbaforido de dor e prazer da minha
garganta. Gozei mais uma vez, grudando meu corpo ao dele com todas as minhas forças.
“Meu Deus, Demetria.” Com um rugido áspero, ele entrou violentamente em erupção,
inundando-me com seu calor. Pressionando meus quadris, ele me deixou imóvel e se
esvaziou dentro de mim na maior profundidade que foi capaz de alcançar.
Quando terminamos, ele respirou fundo e ajeitou meus cabelos com as mãos,
beijando meu pescoço suado. “Queria que você soubesse o que me faz. Queria saber
explicar.”
Eu o abracei com toda a força. “Não consigo deixar de fazer coisas idiotas por sua
causa. É mais do que consigo suportar, Joseph. É...”
“... incontrolável.” Ele começou tudo de novo, com estocadas ritmadas. Pelo
simples prazer de fazê-lo. Como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Inchando e
crescendo a cada investida.
“E você precisa estar no controle.” Perdi o fôlego quando ele atingiu um ponto
particularmente sensível.
“Preciso de você, Demetria.” Seus olhos permaneciam grudados nos meus enquanto ele
se mexia dentro de mim. “Preciso de você.”
Joseph não saiu mais do meu lado, e não permitiu que eu me afastasse dele, pelo
resto da noite. Seu braço direito permaneceu unido ao meu inclusive durante o jantar. Mais uma vez, ele preferiu comer com uma só mão a ter de me largar.
Corinne — que havia se sentado ao seu lado na nossa mesa — o encarou com um
olhar de curiosidade. “Não lembrava que você era canhoto.”
“Não sou”, ele respondeu, levantando nossas mãos unidas até a boca e beijando
meus dedos. Senti-me tola e insegura quando ele fez isso — e envergonhada por Corinne ter visto aquilo.
Infelizmente, sua disposição a gestos românticos não impediu que ele passasse o
jantar inteiro conversando com ela, não comigo — o que me deixou impaciente e infeliz.
Eu estava vendo mais as costas de Joseph do que seu rosto.
“Pelo menos não é frango.”
Virei-me para ver o homem sentado ao meu lado. Estava tão preocupada em tentar
ouvir a conversa de Joseph que nem prestei atenção ao restante da mesa.
“Eu gosto de frango”, foi minha resposta. E tinha gostado da tilápia servida no
jantar — e limpado o prato.
“Não de frango de borracha, com certeza.” Ele sorriu, o que o fez parecer bem mais
jovem do que seus cabelos grisalhos sugeriam. “Ah, um sorriso”, ele murmurou. “E muito
bonito, por sinal.”
“Obrigada.” Eu me apresentei.
“Doutor Terrence Lucas”, ele respondeu. “Mas prefiro Terry.”
“Doutor Terry. Prazer em conhecer.”
Ele abriu outro sorriso. “Só Terry, Demetria.”
Durante os poucos minutos em que conversamos, convenci-me de que o dr. Lucas
não era muito mais velho que eu, apenas prematuramente grisalho. Além disso, seu rosto
era liso e bonito, e seus olhos verdes eram inteligentes e gentis. Minha estimativa quanto à sua idade foi revista para uns trinta e tantos.
“Você parece tão entediada quanto eu”, ele comentou. “Esses eventos levantam
dinheiro por uma boa causa, mas são um pé no saco. Quer ir comigo até o bar? Eu te pago
uma bebida.”
Tentei fazer com que Joseph soltasse minha mão sob a mesa. Ele a apertou ainda
mais.
“O que está fazendo?”, ele murmurou.
Vi que ele estava virado para mim. Depois acompanhei seu olhar até chegar ao dr.
Lucas, que estava de pé atrás de nós. Joseph fechou a cara visivelmente.
“Ela vai aliviar o tédio de ser ignorada, Jonas”, disse Terry, apoiando as mãos sobre
o encosto da minha cadeira, “vai doar um pouco de seu tempo a alguém que ficaria feliz em dedicar sua atenção a uma linda mulher.”
Senti-me imediatamente desconfortável diante da animosidade crescente entre os
dois. Puxei minha mão, mas Joseph não me largou.
“Suma daqui, Terry”, Joseph alertou.
“Você estava tão entretido com a senhora Giroux que nem reparou que eu estou
sentado nesta mesa.” Terry abriu um sorriso tenso. “Vamos, Demetria?”
“Paradinha aí, Demetria.”
Estremeci ao ouvir seu tom de voz, mas estava magoada o bastante para dizer: “Não
é culpa dele. Ele está certo”.
Joseph apertava tanto minha mão que até doía. “Não vamos discutir isso agora.”
O olhar de Terry se voltou para mim. “Você não é obrigada a aturar esse tipo de
tratamento. Nem todo o dinheiro do mundo dá a ele o direito de tratar alguém assim.”
Furiosa e terrivelmente envergonhada, eu me virei para Joseph. “Crossfire.”
Não sabia ao certo se podia usar a palavra de segurança fora do quarto, mas ele me
soltou assim que a ouviu. Empurrei a cadeira para trás e joguei meu guardanapo no prato.
“Com licença. Vocês dois.”
Com a bolsa na mão, saí de perto da mesa com passos firmes e decididos. Fui até o banheiro para retocar a maquiagem e me recompor, mas, assim que vi que havia uma saída
ali, meu desejo de sumir dali falou mais alto.
Tirei o celular da bolsa ao chegar à calçada e mandei uma mensagem para Joseph:
Não estou fugindo. Só indo embora.
Consegui pegar um táxi que passava por ali e fui acalmar minha raiva em casa.
Quando cheguei ao apartamento, tudo o que eu queria era uma banheira quente e
uma garrafa de vinho. Ao pôr a chave na porta e virar a maçaneta, porém, dei de cara com um set de filmagens de cinema pornô.
Durante os poucos segundos que meu cérebro precisou para registrar o que meus
olhos estavam vendo, fiquei parada na entrada do apartamento, inundando o corredor atrás de mim com o som estridente do tecnopop. Havia tantas partes de corpos envolvidas que eu tive tempo de bater a porta com força antes de montar o quebra-cabeça. Uma mulher estava deitada de pernas abertas no chão. Outra estava debruçada sobre ela, chupando-a. Cary estava mandando ver nela com força, enquanto outro cara o comia por trás.
Olhei para cima e soltei o berro mais alto que consegui, incapaz de esconder que
estava de saco cheio de todas as pessoas que faziam parte da minha vida. Como o ruído da música ainda estava competindo comigo, tirei um dos sapatos e joguei no aparelho de som.
O CD pulou, o que interrompeu a sessão de ménage à quatre que acontecia no chão da
minha sala e chamou a atenção para minha presença. Passei por cima deles e desliguei o
som antes de encará-los.
“Fora da minha casa”, gritei. “Agora.”
“Quem é essa aí?”, perguntou a ruiva na base da pirâmide. “Sua mulher?”
Por um breve momento, pude ver a vergonha e a culpa no rosto de Cary, mas logo
depois ele abriu um sorriso arrogante. “Minha colega de apartamento. Tem lugar pra mais
uma, gata.”
“Cary Taylor. Não me provoque”, alertei. “Você não me pegou num bom dia. Não
mesmo.”
O homem de cabelos escuros que estava atrás de Cary saiu de cima dele e veio para
o meu lado. À medida que ele se aproximava, vi que seus olhos castanhos estavam
absurdamente dilatados e que as veias de seu pescoço pulsavam enlouquecidamente. “Posso salvar o seu dia”, ele ofereceu com um sorrisinho.
“Não vem que não tem.” Ajustei minha postura, preparando-me para atacá-lo
fisicamente se fosse preciso.
“Deixe ela em paz, Ian”, Cary gritou, pondo-se de pé.
“Qual é, gata”, Ian continuou, deixando-me enojada ao usar o mesmo tratamento
que Cary usava para se referir a mim. “Você precisa se divertir um pouco. Pode confiar em mim.”
Por um instante ele chegou a ficar a poucos centímetros de mim. No momento
seguinte, estava caindo no sofá com um grito. Joseph se colocou entre mim e todos os
outros, tremendo de raiva. “Vá terminar isso no quarto, Cary”, ele mandou. “Ou então em
outro lugar.”
Ian estava se contorcendo no sofá, com o nariz jorrando sangue apesar das duas
mãos que tentavam estancá-lo.
Cary apanhou seu jeans, que estava no chão. “Você não é minha mãe, Demetria.”
Dei um passo à frente e fiquei lado a lado com Joseph. “Ter estragado tudo com Trey não serviu de lição pra você, seu imbecil do caralho?”
“Isso não tem nada a ver com Trey!”
“Quem é Trey?”, perguntou a loira curvilínea ao se levantar. Quando conseguiu
olhar melhor para Joseph, ela se abriu toda, mostrando seu corpo belíssimo.
Seus esforços renderam apenas um olhar tão carregado de desprezo que ela enfim
teve a decência de corar de vergonha e se cobrir com um vestido dourado que apanhou do chão. Aproveitando minha disposição para briga, lancei uma provocação: “Não leve a mal, não. Ele prefere as morenas”.
O olhar que Joseph lançou para mim foi assustador. Eu nunca o tinha visto assim
tão perturbado. Ele estava literalmente a um passo de uma explosão de violência.
Assustada por aquele olhar, involuntariamente dei um passo atrás. Ele soltou
palavrões furiosos e passou as duas mãos pelos cabelos.
Sentindo-me subitamente esgotada e decepcionadíssima com os homens da minha
vida, virei as costas para tudo aquilo. “Não quero essa putaria dentro da minha casa, Cary.”
Tomei o caminho do corredor, largando o outro sapato no caminho. Quando cheguei
ao banheiro já estava sem roupa, e logo depois estava no chuveiro. Esperei a água esquentar e a deixei cair por meu corpo com toda a força. Cansada demais para ficar muito tempo de pé, sentei no chão bem embaixo da água corrente com os olhos fechados, abraçando os joelhos.
“Demetria.”
Eu me encolhi ao ouvir a voz de Joseph, agarrando as pernas com ainda mais força.
“Puta que pariu”, ele explodiu. “Não existe ninguém no mundo que me deixe mais
puto que você.”
Olhei para ele por entre os cabelos molhados. Ele andava de um lado para o outro
no banheiro, sem paletó e com a camisa para fora da calça. “Vá pra casa, Joseph.”
Ele parou e me lançou um olhar incrédulo. “Não vou deixar você aqui sozinha nem
fodendo. Cary pirou de vez! Aquele drogado filho da puta estava quase atacando você
quando cheguei.”
“Cary não deixaria isso acontecer. Além disso, não estou com cabeça pra aturar
você e ele ao mesmo tempo.” Eu não queria aturar nenhum dos dois, na verdade. Só queria ficar sozinha.
“Então vai se concentrar só em mim.”
Tirei os cabelos do rosto com um gesto impaciente. “Ah, é? Então quer dizer que a
prioridade da minha vida é você?”
Ele se encolheu como se tivesse levado uma pancada. “Pensei que a prioridade da
nossa vida fosse fazer esta relação funcionar.”
“É, eu também pensava. Até esta noite.”
“Meu Deus. Dá pra esquecer essa história da Corinne?” Ele abriu os braços. “Estou
aqui com você, não estou? Mal tive tempo de me despedir dela, porque tive que sair
correndo atrás de você. De novo.”
“Foda-se. Não fui eu que pedi pra você vir atrás de mim.”
Joseph entrou no chuveiro de roupa e tudo. Botou-me de pé com um puxão e me
beijou. Com vontade. Sua boca devorava a minha, enquanto suas mãos apertavam meus
braços para me manter onde ele queria.
Mas mantive a postura dessa vez. Não ia ceder. Nem mesmo quando ele tentou me
seduzir com lambidas lascivas e sugestivas.
“Por quê?”, ele murmurou, com a boca colada ao meu pescoço. “Por que você quer me deixar maluco?”
“Não sei qual é seu problema com o doutor Lucas, e sinceramente não estou nem aí.
Mas ele tinha razão. Você só conseguia prestar atenção em Corinne. Praticamente me
ignorou durante o jantar inteiro.”
“É impossível pra mim ignorar você, Demetria.” Ele fechou a cara. “Quando você está
por perto, não tenho olhos pra mais ninguém.”
“Que engraçado. Porque, pelo que eu vi, você ficou o tempo todo de olho nela.”
“Que bobagem.” Ele me soltou e tirou os cabelos molhados do meu rosto. “Você
sabe o que sinto por você.”
“Ah, eu sei? Sei que você me quer. E que precisa de mim. Mas você é apaixonado
por Corinne?”
“Porra, é inacreditável. Não.” Ele desligou o chuveiro e apoiou as duas mãos no box
em torno de mim para que eu não saísse. “Você quer que eu diga que te amo, Demetria? Essa cena toda é por isso?”
Senti meu estômago se contrair como se tivesse levado um soco. Nunca havia
sentido uma dor como aquela, nem sabia que ela existia. Meus olhos ardiam, e eu me
abaixei para passar sob seu braço antes de cair no choro. “Vá pra casa, Joseph. Por favor.”
“Eu estou em casa.” Ele me agarrou por trás e enfiou o rosto nos meus cabelos
ensopados. “Estou com você.”
Lutei para me libertar, mas estava abalada demais. Fisicamente. Emocionalmente.
As lágrimas começaram a cair em profusão, e não havia como detê-las. Eu odiava chorar
quando não estava sozinha. “Vá embora. Por favor.”
“Eu te amo, Demetria. É claro que sim.”
“Ai, meu Deus.” Eu o chutei e consegui escapar. Seria capaz de qualquer coisa para
me afastar de uma pessoa que estava me causando tamanha dor e sofrimento. “Não estou
pedindo pra você ter pena de mim. Estou pedindo pra ir embora.”
“Não posso. Você sabe que não posso. Pare de brigar comigo, Demetria. Me escute.”
“Você só está me magoando com essa conversa, Joseph.”
“Não é a palavra certa, Demetria”, ele continuou, teimoso, com os lábios grudados na
minha orelha. “É por isso que eu não disse antes. Não é a palavra certa pra você nem pro
que eu sinto por você.”
“Chega. Se você gostar de mim um pouquinho que seja, vai calar essa boca e sumir
daqui.”
“Já fui amado antes — por Corinne, por outras mulheres... Mas o que elas sabem
sobre mim? Como é que elas podem estar apaixonadas se não sabem nem quem sou? Se o
amor é isso, não é nada em comparação ao que sinto por você.”
Fiquei paralisada, tremendo, vendo no espelho meu rosto borrado de rímel e meus
cabelos ensopados e desgrenhados ao lado da beleza perturbada de Joseph. Suas feições
estavam dominadas pela emoção quando ele me abraçou com força. Nós não parecíamos
combinar em nada um com o outro.
Ainda assim eu compreendia sua alienação por estar cercado de pessoas que não
podiam, ou não queriam, entendê-lo. Podia sentir seu auto-desprezo, proveniente do fato de ser uma fraude, uma imagem projetada de alguém que ele queria ser, mas não era. Sabia o que era conviver com o medo de que as pessoas que ele amava lhe virassem as costas caso o conhecessem como realmente era.
“Joseph...”
Ele beijou minha testa. “Acho que me apaixonei no momento em que vi você. E quando transamos na limusine virou outra coisa. Uma coisa maior.”
“Que seja. Você me deu um chega pra lá naquela noite e foi cuidar de Corinne.
Como é que você pôde fazer uma coisa dessas comigo, Joseph?”
Ele só me largou quando se ajeitou para me pegar no colo e me levar até onde
estava meu robe, pendurado em um gancho atrás da porta. Ele me vestiu e depois me sentou na borda da banheira enquanto ia até a pia e pegava meus paninhos de tirar maquiagem da gaveta. Agachado na minha frente, começou a limpar meu rosto.
“Quando Corinne me ligou no meio daquele evento, era o momento perfeito pra eu
fazer uma idiotice.” A expressão em seu rosto banhado de lágrimas era tranquila e afetuosa.
“Você e eu tínhamos acabado de transar, e eu não estava conseguindo pensar direito. Disse pra ela que estava ocupado, e que estava acompanhado, mas quando percebi que ela estava magoada, achei que precisava acertar os ponteiros com ela pra poder seguir em frente com você.”
“Não entendi nada. Você me deixou de lado por causa dela. É isso que você chama
de seguir em frente comigo?”
“Eu pisei na bola com Corinne, Demetria.” Ele levantou meu queixo para limpar meus
olhos borrados. “Nós nos conhecemos no meu primeiro ano de universidade. Ela chamou
minha atenção, é claro, toda linda e meiga, incapaz de dizer uma palavra desagradável
sobre quem quer que seja. Quando veio atrás de mim, eu me deixei levar e tive minha
primeira experiência sexual de comum acordo com ela.”
“Eu a odeio.”
Ele abriu um sorrisinho ao ouvir isso.
“Não estou brincando, Joseph. Esta conversa está me matando de ciúme.”
“Com ela era só sexo, meu anjo. Com você, por mais violento e selvagem que seja,
eu sempre faço amor. Desde a primeira vez. Você é a única pessoa capaz de fazer com que eu me sinta assim.”
Suspirei. “Está bem. Estou um pouquinho melhor.”
Ele me beijou. “Acho que dá para dizer que nós namoramos. Só fazíamos sexo um
com o outro e íamos a vários lugares juntos. Ainda assim, quando ela disse que me amava,
foi uma surpresa. Uma surpresa agradável. Eu gostava dela. Da companhia dela.”
“E pelo jeito ainda gosta”, resmunguei.
“Me deixe falar.” Ele me castigou batendo com o dedo na ponta do meu nariz.
“Pensei que eu poderia estar apaixonado também, da minha maneira... da única maneira
que eu conhecia. Não queria ver Corinne com outra pessoa. Então aceitei quando ela propôs o casamento.”
Eu me afastei para olhar bem para ele. “Ela propôs o casamento?”
“Não precisava ficar tão surpresa”, ele falou, irônico. “Você está acabando com
meu ego.”
O alívio tomou conta de mim com tamanha velocidade que fiquei até tonta.
Atirei-me sobre ele, abraçando-o com a maior força de que era capaz.
“Ei.” Ele retribuiu o abraço com a mesma avidez. “Está tudo bem?”
“Melhorando.” Agarrei seu rosto entre as minhas mãos. “Continue falando.”
“Aceitei pelos motivos errados. Estávamos saindo fazia dois anos, e nunca tínhamos
nem dormido juntos. Nunca falamos sobre as coisas que eu converso com você. Ela não me conhece, pelo menos não de verdade, mas ainda assim acabei me convencendo de que ser amado bastava. E quem seria capaz de fazer isso melhor que ela?”
Joseph passou a concentrar sua atenção em meu outro olho, removendo as manchas pretas. “Acho que ela esperava que o noivado fosse fazer o relacionamento decolar. Que eu fosse me abrir mais. Que dormisse com ela no hotel — que ela considerava muito romântico, aliás — em vez de ir logo pra casa por causa das aulas no dia seguinte... Sei lá.”
Tudo isso me mostrou como ele era uma pessoa solitária. Meu pobre Joseph. Tinha
passado tanto tempo sozinho. Talvez a vida inteira.
“E de repente ela pode ter terminado tudo um ano depois”, ele continuou, “pra
tentar dar uma sacudida nas coisas. Pra me obrigar a fazer um esforço pra ficar com ela. Em vez disso, fiquei aliviado, porque já estava começando a entender que seria impossível pra mim morar sob o mesmo teto que ela. Que desculpa eu teria que arrumar para continuar dormindo sozinho e ter um espaço só pra mim?”
“Você nunca pensou em contar pra ela?”
“Não.” Ele encolheu os ombros. “Até conhecer você, não encarava meu passado
como um problema. Até achava que ele tinha influência na maneira como eu conduzia as
coisas, mas tudo tinha seu lugar e eu não me considerava infeliz. Na verdade, achava que
levava uma vida confortável e descomplicada.”
“Ops.” Franzi o nariz. “Olá, senhor Confortável. Eu sou a senhorita Complicada.”
Ele abriu um sorriso. “Com você, nada é previsível ou tedioso.”
Ele estava agradecendo ao barman com dois copos na mão quando o abordei.
Peguei meu copo e virei em um gole, sentindo meus dentes doerem ao toque dos cubos de gelo.
“Demetria...” Havia um leve tom de reprimenda em sua voz.
“Estou indo embora”, eu disse sem rodeios, passando ao seu lado para deixar o copo
vazio no balcão. “Não considero isso uma fuga, porque estou avisando com antecedência, e você pode ir comigo se quiser.”
Ele bufou, deixando bem claro que entendia o motivo do mau humor. Ele sabia que
eu sabia. “Não posso ir embora agora.”
Virei as costas.
Ele me pegou pelo braço. “Não vou conseguir ficar se você for embora. Você não
tem por que ficar chateada, Demetria.”
“Ah, não?” Olhei para o ponto em que sua mão me agarrava. “Eu avisei que era
ciumenta. E, desta vez, você me deu uma boa razão pra isso.”
“Só porque me avisou você acha que pode dar uma de ridícula?” Seu rosto estava
relaxado e seu tom de voz, calmo e controlado. Ninguém seria capaz de notar à distância a tensão que havia entre nós, mas seus olhos diziam tudo. Brilhavam de fúria e luxúria. Ele era muito bom em combinar as duas coisas.
“Ridícula, é? E o que você fez com Daniel, o instrutor da academia? Ou com
Martin, um membro da minha família?” Cheguei mais perto e sussurrei: “Eu nunca trepei
com nenhum dos dois, muito menos concordei em me casar com eles! E pode ter certeza de que não converso todo santo dia com nenhum deles!”.
Em um gesto abrupto, ele me agarrou pela cintura e me puxou para perto. “Você
precisa ser comida agora mesmo”, ele cochichou no meu ouvido, mordendo a ponta da
minha orelha. “Não devia ter feito você esperar.”
“Vai ver você fez tudo de caso pensado”, rebati. “Estava se poupando pro caso de
uma velha chama se acender e você preferir trepar com outra pessoa.”
Joseph virou sua bebida e depois me segurou pela cintura com toda a força antes de
me conduzir até a porta. Ele sacou o celular do bolso e chamou a limusine. Quando
chegamos à rua, o carro já estava lá. Joseph me empurrou porta adentrou e ordenou para
Angus: “Dê umas voltas no quarteirão até eu mandar parar”.
Ele entrou logo depois de mim, tão perto que eu conseguia sentir sua respiração
contra as minhas costas nuas. Pulei para o outro assento, determinada a manter distância
dele...
“Pare com isso”, ele gritou.
Caí de joelhos no assoalho acarpetado, com a respiração acelerada. Eu poderia
correr até o fim do mundo, mas ainda assim não ia escapar do fato de que Corinne Giroux
era uma companhia muito melhor para Joseph do que eu. Era calma e elegante, uma
presença tranquilizadora até para mim — a pessoa que estava surtando ao tomar
conhecimento de sua existência. Meu pior pesadelo.
Sua mão se enrolou em meus cabelos soltos, prendendo-me. Suas pernas abertas
envolveram as minhas, puxando-me com tanta força que minha cabeça encostou em seu
ombro. “Vou fazer agora uma coisa de que nós dois precisamos, Demetria. Vamos trepar até essa tensão se dissipar o suficiente para podermos voltar para o jantar. E não se preocupe com Corinne, porque, enquanto ela fica lá dentro, vou estar aqui, dentro de você.”
“Está bem”, sussurrei, passando a língua por meus lábios secos.
“Você esqueceu quem é que manda aqui, Demetria”, ele falou asperamente. “Abri mão
do controle por sua causa. Cedi e ajustei meu comportamento pra você. Faço qualquer coisa pra deixar você feliz. Mas não aceito cabresto nem chicote. Não confunda minha boa vontade com fraqueza.”
Engoli em seco, com o sangue fervendo por ele. “Joseph...”
“Estique as mãos e se segure na barra debaixo da janela. Não solte até eu mandar,
entendeu?”
Fiz conforme ele mandou, segurando a barra com revestimento de couro. Quando
minhas mãos se fixaram ali, meu corpo voltou à vida, fazendo-me perceber o quanto de fato precisava daquilo. Ele me conhecia tão bem, meu amor.
Enfiando as mãos sob a parte de cima do meu vestido, Joseph agarrou meus seios
inchados e sedentos. Quando apertou e girou meus mamilos, minha cabeça se jogou para
trás em sua direção, com a tensão à flor da pele.
“Minha nossa.” Ele esfregou a boca contra a minha têmpora. “É tão perfeito quando
você se entrega assim pra mim... quando se abre todinha, como se dependesse disso pra
viver.”
“Me fode”, implorei, sentindo uma necessidade aguda dessa ligação entre nós. “Por
favor.”
Ele soltou meu cabelo, enfiou a mão por baixo do meu vestido e arrancou a minha
calcinha. Seu paletó passou voando por mim e aterrissou no assento; depois suas mãos
encontraram o caminho até o meio das minhas pernas. Ele soltou um grunhido ao sentir que eu estava toda molhada. “Você foi feita pra mim, Demetria. Não consegue ficar muito tempo sem me sentir dentro de você.”
Ainda assim ele continuava me provocando, explorando-me com os dedos,
espalhando a umidade por meu clitóris e meus lábios vaginais. Depois enfiou dois dedos
em mim e os abriu como uma tesoura, preparando-me para receber seu pau grande e grosso.
“Você me quer, Joseph?”, perguntei ofegante, louca para me mexer ao ritmo de
seus dedos, mas impedida pela distância por ter que permanecer agarrada à barra de apoio.
“Mais do que o ar que eu respiro.” Seus lábios se mexiam perto do meu pescoço,
por cima do meu ombro, e o calor de sua língua aveludada passava sedutoramente por
minha pele. “Também não consigo ficar sem você, Demetria. Você é meu vício... minha
obsessão...”
Seus dentes se encravaram de leve na minha pele, combinando seu desejo animal
com um ruído brutal de desejo. Enquanto ele me penetrava com os dedos, sua outra mão
massageava meu clitóris, fazendo-me gozar de novo e de novo com aquela estimulação
simultânea.
“Joseph!”, gritei quase sem fôlego quando meus dedos úmidos começaram a
escorregar da barra revestida em couro.
Suas mãos me soltaram e ouvi o ruído excitante de seu zíper baixando. “Pode soltar
e deitar com as pernas abertas.”
Deitei-me e ofereci o meu corpo para ele tremendo de ansiedade. Joseph me olhou
nos olhos, e seu rosto se iluminou com os faróis de um carro que passava.
“Não tenha medo.” Ele subiu em cima de mim, soltando seu peso com um cuidado
escrupuloso.
“Estou com tesão demais pra sentir medo.” Eu o agarrei e lancei meu corpo para
cima a fim de ficar mais perto do dele. “Quero você.”
A cabeça de seu pau se esfregava nos lábios do meu sexo. Flexionando os quadris,ele entrou em mim, expirando o ar junto comigo em uma sincronia marcante. Fiquei toda
mole em cima do assento, com os dedos apoiados contra sua cintura estreita.
“Eu te amo”, sussurrei, observando seu rosto enquanto ele começava a se mexer.
Cada pedacinho da minha pele queimava como se eu estivesse sob o sol, e meu peito estava tão apertado que a respiração ficava difícil. “E preciso de você, Joseph.”
“Eu sou seu”, ele murmurou enquanto seu pau entrava e saía. “Não poderia ser mais
seu.”
Estremeci e fiquei toda tensa. Meus quadris se remexiam sem cessar na direção de
suas estocadas ritmadas. Cheguei ao clímax com um grito abafado, toda arrepiada enquanto o orgasmo se espalhava por meu sexo, ordenhando seu membro até ele soltar um grunhido e começar a meter com ainda mais força.
“Demetria.”
Eu me mexia de encontro a suas estocadas ferozes, incitando-o a continuar. Ele me
agarrou com força e começou a se mover mais rápido. Minha cabeça se sacudia de um lado para o outro e eu gemia sem o menor pudor, adorando aquela sensação dele dentro de mim, aquela impressão volátil de ser possuída e brutalmente saciada.
Estávamos malucos um pelo outro, trepando como animais selvagens, e eu estava
tão em sintonia com nosso desejo furioso que pensei que ia morrer ao sentir mais um
orgasmo começar a crescer dentro de mim.
“Você é tão bom nisso, Joseph. Tão bom...”
Ele agarrou minha bunda e me puxou para trás contra sua investida violenta,
chegando até o fundo, expulsando um gemido esbaforido de dor e prazer da minha
garganta. Gozei mais uma vez, grudando meu corpo ao dele com todas as minhas forças.
“Meu Deus, Demetria.” Com um rugido áspero, ele entrou violentamente em erupção,
inundando-me com seu calor. Pressionando meus quadris, ele me deixou imóvel e se
esvaziou dentro de mim na maior profundidade que foi capaz de alcançar.
Quando terminamos, ele respirou fundo e ajeitou meus cabelos com as mãos,
beijando meu pescoço suado. “Queria que você soubesse o que me faz. Queria saber
explicar.”
Eu o abracei com toda a força. “Não consigo deixar de fazer coisas idiotas por sua
causa. É mais do que consigo suportar, Joseph. É...”
“... incontrolável.” Ele começou tudo de novo, com estocadas ritmadas. Pelo
simples prazer de fazê-lo. Como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Inchando e
crescendo a cada investida.
“E você precisa estar no controle.” Perdi o fôlego quando ele atingiu um ponto
particularmente sensível.
“Preciso de você, Demetria.” Seus olhos permaneciam grudados nos meus enquanto ele
se mexia dentro de mim. “Preciso de você.”
Joseph não saiu mais do meu lado, e não permitiu que eu me afastasse dele, pelo
resto da noite. Seu braço direito permaneceu unido ao meu inclusive durante o jantar. Mais uma vez, ele preferiu comer com uma só mão a ter de me largar.
Corinne — que havia se sentado ao seu lado na nossa mesa — o encarou com um
olhar de curiosidade. “Não lembrava que você era canhoto.”
“Não sou”, ele respondeu, levantando nossas mãos unidas até a boca e beijando
meus dedos. Senti-me tola e insegura quando ele fez isso — e envergonhada por Corinne ter visto aquilo.
Infelizmente, sua disposição a gestos românticos não impediu que ele passasse o
jantar inteiro conversando com ela, não comigo — o que me deixou impaciente e infeliz.
Eu estava vendo mais as costas de Joseph do que seu rosto.
“Pelo menos não é frango.”
Virei-me para ver o homem sentado ao meu lado. Estava tão preocupada em tentar
ouvir a conversa de Joseph que nem prestei atenção ao restante da mesa.
“Eu gosto de frango”, foi minha resposta. E tinha gostado da tilápia servida no
jantar — e limpado o prato.
“Não de frango de borracha, com certeza.” Ele sorriu, o que o fez parecer bem mais
jovem do que seus cabelos grisalhos sugeriam. “Ah, um sorriso”, ele murmurou. “E muito
bonito, por sinal.”
“Obrigada.” Eu me apresentei.
“Doutor Terrence Lucas”, ele respondeu. “Mas prefiro Terry.”
“Doutor Terry. Prazer em conhecer.”
Ele abriu outro sorriso. “Só Terry, Demetria.”
Durante os poucos minutos em que conversamos, convenci-me de que o dr. Lucas
não era muito mais velho que eu, apenas prematuramente grisalho. Além disso, seu rosto
era liso e bonito, e seus olhos verdes eram inteligentes e gentis. Minha estimativa quanto à sua idade foi revista para uns trinta e tantos.
“Você parece tão entediada quanto eu”, ele comentou. “Esses eventos levantam
dinheiro por uma boa causa, mas são um pé no saco. Quer ir comigo até o bar? Eu te pago
uma bebida.”
Tentei fazer com que Joseph soltasse minha mão sob a mesa. Ele a apertou ainda
mais.
“O que está fazendo?”, ele murmurou.
Vi que ele estava virado para mim. Depois acompanhei seu olhar até chegar ao dr.
Lucas, que estava de pé atrás de nós. Joseph fechou a cara visivelmente.
“Ela vai aliviar o tédio de ser ignorada, Jonas”, disse Terry, apoiando as mãos sobre
o encosto da minha cadeira, “vai doar um pouco de seu tempo a alguém que ficaria feliz em dedicar sua atenção a uma linda mulher.”
Senti-me imediatamente desconfortável diante da animosidade crescente entre os
dois. Puxei minha mão, mas Joseph não me largou.
“Suma daqui, Terry”, Joseph alertou.
“Você estava tão entretido com a senhora Giroux que nem reparou que eu estou
sentado nesta mesa.” Terry abriu um sorriso tenso. “Vamos, Demetria?”
“Paradinha aí, Demetria.”
Estremeci ao ouvir seu tom de voz, mas estava magoada o bastante para dizer: “Não
é culpa dele. Ele está certo”.
Joseph apertava tanto minha mão que até doía. “Não vamos discutir isso agora.”
O olhar de Terry se voltou para mim. “Você não é obrigada a aturar esse tipo de
tratamento. Nem todo o dinheiro do mundo dá a ele o direito de tratar alguém assim.”
Furiosa e terrivelmente envergonhada, eu me virei para Joseph. “Crossfire.”
Não sabia ao certo se podia usar a palavra de segurança fora do quarto, mas ele me
soltou assim que a ouviu. Empurrei a cadeira para trás e joguei meu guardanapo no prato.
“Com licença. Vocês dois.”
Com a bolsa na mão, saí de perto da mesa com passos firmes e decididos. Fui até o banheiro para retocar a maquiagem e me recompor, mas, assim que vi que havia uma saída
ali, meu desejo de sumir dali falou mais alto.
Tirei o celular da bolsa ao chegar à calçada e mandei uma mensagem para Joseph:
Não estou fugindo. Só indo embora.
Consegui pegar um táxi que passava por ali e fui acalmar minha raiva em casa.
Quando cheguei ao apartamento, tudo o que eu queria era uma banheira quente e
uma garrafa de vinho. Ao pôr a chave na porta e virar a maçaneta, porém, dei de cara com um set de filmagens de cinema pornô.
Durante os poucos segundos que meu cérebro precisou para registrar o que meus
olhos estavam vendo, fiquei parada na entrada do apartamento, inundando o corredor atrás de mim com o som estridente do tecnopop. Havia tantas partes de corpos envolvidas que eu tive tempo de bater a porta com força antes de montar o quebra-cabeça. Uma mulher estava deitada de pernas abertas no chão. Outra estava debruçada sobre ela, chupando-a. Cary estava mandando ver nela com força, enquanto outro cara o comia por trás.
Olhei para cima e soltei o berro mais alto que consegui, incapaz de esconder que
estava de saco cheio de todas as pessoas que faziam parte da minha vida. Como o ruído da música ainda estava competindo comigo, tirei um dos sapatos e joguei no aparelho de som.
O CD pulou, o que interrompeu a sessão de ménage à quatre que acontecia no chão da
minha sala e chamou a atenção para minha presença. Passei por cima deles e desliguei o
som antes de encará-los.
“Fora da minha casa”, gritei. “Agora.”
“Quem é essa aí?”, perguntou a ruiva na base da pirâmide. “Sua mulher?”
Por um breve momento, pude ver a vergonha e a culpa no rosto de Cary, mas logo
depois ele abriu um sorriso arrogante. “Minha colega de apartamento. Tem lugar pra mais
uma, gata.”
“Cary Taylor. Não me provoque”, alertei. “Você não me pegou num bom dia. Não
mesmo.”
O homem de cabelos escuros que estava atrás de Cary saiu de cima dele e veio para
o meu lado. À medida que ele se aproximava, vi que seus olhos castanhos estavam
absurdamente dilatados e que as veias de seu pescoço pulsavam enlouquecidamente. “Posso salvar o seu dia”, ele ofereceu com um sorrisinho.
“Não vem que não tem.” Ajustei minha postura, preparando-me para atacá-lo
fisicamente se fosse preciso.
“Deixe ela em paz, Ian”, Cary gritou, pondo-se de pé.
“Qual é, gata”, Ian continuou, deixando-me enojada ao usar o mesmo tratamento
que Cary usava para se referir a mim. “Você precisa se divertir um pouco. Pode confiar em mim.”
Por um instante ele chegou a ficar a poucos centímetros de mim. No momento
seguinte, estava caindo no sofá com um grito. Joseph se colocou entre mim e todos os
outros, tremendo de raiva. “Vá terminar isso no quarto, Cary”, ele mandou. “Ou então em
outro lugar.”
Ian estava se contorcendo no sofá, com o nariz jorrando sangue apesar das duas
mãos que tentavam estancá-lo.
Cary apanhou seu jeans, que estava no chão. “Você não é minha mãe, Demetria.”
Dei um passo à frente e fiquei lado a lado com Joseph. “Ter estragado tudo com Trey não serviu de lição pra você, seu imbecil do caralho?”
“Isso não tem nada a ver com Trey!”
“Quem é Trey?”, perguntou a loira curvilínea ao se levantar. Quando conseguiu
olhar melhor para Joseph, ela se abriu toda, mostrando seu corpo belíssimo.
Seus esforços renderam apenas um olhar tão carregado de desprezo que ela enfim
teve a decência de corar de vergonha e se cobrir com um vestido dourado que apanhou do chão. Aproveitando minha disposição para briga, lancei uma provocação: “Não leve a mal, não. Ele prefere as morenas”.
O olhar que Joseph lançou para mim foi assustador. Eu nunca o tinha visto assim
tão perturbado. Ele estava literalmente a um passo de uma explosão de violência.
Assustada por aquele olhar, involuntariamente dei um passo atrás. Ele soltou
palavrões furiosos e passou as duas mãos pelos cabelos.
Sentindo-me subitamente esgotada e decepcionadíssima com os homens da minha
vida, virei as costas para tudo aquilo. “Não quero essa putaria dentro da minha casa, Cary.”
Tomei o caminho do corredor, largando o outro sapato no caminho. Quando cheguei
ao banheiro já estava sem roupa, e logo depois estava no chuveiro. Esperei a água esquentar e a deixei cair por meu corpo com toda a força. Cansada demais para ficar muito tempo de pé, sentei no chão bem embaixo da água corrente com os olhos fechados, abraçando os joelhos.
“Demetria.”
Eu me encolhi ao ouvir a voz de Joseph, agarrando as pernas com ainda mais força.
“Puta que pariu”, ele explodiu. “Não existe ninguém no mundo que me deixe mais
puto que você.”
Olhei para ele por entre os cabelos molhados. Ele andava de um lado para o outro
no banheiro, sem paletó e com a camisa para fora da calça. “Vá pra casa, Joseph.”
Ele parou e me lançou um olhar incrédulo. “Não vou deixar você aqui sozinha nem
fodendo. Cary pirou de vez! Aquele drogado filho da puta estava quase atacando você
quando cheguei.”
“Cary não deixaria isso acontecer. Além disso, não estou com cabeça pra aturar
você e ele ao mesmo tempo.” Eu não queria aturar nenhum dos dois, na verdade. Só queria ficar sozinha.
“Então vai se concentrar só em mim.”
Tirei os cabelos do rosto com um gesto impaciente. “Ah, é? Então quer dizer que a
prioridade da minha vida é você?”
Ele se encolheu como se tivesse levado uma pancada. “Pensei que a prioridade da
nossa vida fosse fazer esta relação funcionar.”
“É, eu também pensava. Até esta noite.”
“Meu Deus. Dá pra esquecer essa história da Corinne?” Ele abriu os braços. “Estou
aqui com você, não estou? Mal tive tempo de me despedir dela, porque tive que sair
correndo atrás de você. De novo.”
“Foda-se. Não fui eu que pedi pra você vir atrás de mim.”
Joseph entrou no chuveiro de roupa e tudo. Botou-me de pé com um puxão e me
beijou. Com vontade. Sua boca devorava a minha, enquanto suas mãos apertavam meus
braços para me manter onde ele queria.
Mas mantive a postura dessa vez. Não ia ceder. Nem mesmo quando ele tentou me
seduzir com lambidas lascivas e sugestivas.
“Por quê?”, ele murmurou, com a boca colada ao meu pescoço. “Por que você quer me deixar maluco?”
“Não sei qual é seu problema com o doutor Lucas, e sinceramente não estou nem aí.
Mas ele tinha razão. Você só conseguia prestar atenção em Corinne. Praticamente me
ignorou durante o jantar inteiro.”
“É impossível pra mim ignorar você, Demetria.” Ele fechou a cara. “Quando você está
por perto, não tenho olhos pra mais ninguém.”
“Que engraçado. Porque, pelo que eu vi, você ficou o tempo todo de olho nela.”
“Que bobagem.” Ele me soltou e tirou os cabelos molhados do meu rosto. “Você
sabe o que sinto por você.”
“Ah, eu sei? Sei que você me quer. E que precisa de mim. Mas você é apaixonado
por Corinne?”
“Porra, é inacreditável. Não.” Ele desligou o chuveiro e apoiou as duas mãos no box
em torno de mim para que eu não saísse. “Você quer que eu diga que te amo, Demetria? Essa cena toda é por isso?”
Senti meu estômago se contrair como se tivesse levado um soco. Nunca havia
sentido uma dor como aquela, nem sabia que ela existia. Meus olhos ardiam, e eu me
abaixei para passar sob seu braço antes de cair no choro. “Vá pra casa, Joseph. Por favor.”
“Eu estou em casa.” Ele me agarrou por trás e enfiou o rosto nos meus cabelos
ensopados. “Estou com você.”
Lutei para me libertar, mas estava abalada demais. Fisicamente. Emocionalmente.
As lágrimas começaram a cair em profusão, e não havia como detê-las. Eu odiava chorar
quando não estava sozinha. “Vá embora. Por favor.”
“Eu te amo, Demetria. É claro que sim.”
“Ai, meu Deus.” Eu o chutei e consegui escapar. Seria capaz de qualquer coisa para
me afastar de uma pessoa que estava me causando tamanha dor e sofrimento. “Não estou
pedindo pra você ter pena de mim. Estou pedindo pra ir embora.”
“Não posso. Você sabe que não posso. Pare de brigar comigo, Demetria. Me escute.”
“Você só está me magoando com essa conversa, Joseph.”
“Não é a palavra certa, Demetria”, ele continuou, teimoso, com os lábios grudados na
minha orelha. “É por isso que eu não disse antes. Não é a palavra certa pra você nem pro
que eu sinto por você.”
“Chega. Se você gostar de mim um pouquinho que seja, vai calar essa boca e sumir
daqui.”
“Já fui amado antes — por Corinne, por outras mulheres... Mas o que elas sabem
sobre mim? Como é que elas podem estar apaixonadas se não sabem nem quem sou? Se o
amor é isso, não é nada em comparação ao que sinto por você.”
Fiquei paralisada, tremendo, vendo no espelho meu rosto borrado de rímel e meus
cabelos ensopados e desgrenhados ao lado da beleza perturbada de Joseph. Suas feições
estavam dominadas pela emoção quando ele me abraçou com força. Nós não parecíamos
combinar em nada um com o outro.
Ainda assim eu compreendia sua alienação por estar cercado de pessoas que não
podiam, ou não queriam, entendê-lo. Podia sentir seu auto-desprezo, proveniente do fato de ser uma fraude, uma imagem projetada de alguém que ele queria ser, mas não era. Sabia o que era conviver com o medo de que as pessoas que ele amava lhe virassem as costas caso o conhecessem como realmente era.
“Joseph...”
Ele beijou minha testa. “Acho que me apaixonei no momento em que vi você. E quando transamos na limusine virou outra coisa. Uma coisa maior.”
“Que seja. Você me deu um chega pra lá naquela noite e foi cuidar de Corinne.
Como é que você pôde fazer uma coisa dessas comigo, Joseph?”
Ele só me largou quando se ajeitou para me pegar no colo e me levar até onde
estava meu robe, pendurado em um gancho atrás da porta. Ele me vestiu e depois me sentou na borda da banheira enquanto ia até a pia e pegava meus paninhos de tirar maquiagem da gaveta. Agachado na minha frente, começou a limpar meu rosto.
“Quando Corinne me ligou no meio daquele evento, era o momento perfeito pra eu
fazer uma idiotice.” A expressão em seu rosto banhado de lágrimas era tranquila e afetuosa.
“Você e eu tínhamos acabado de transar, e eu não estava conseguindo pensar direito. Disse pra ela que estava ocupado, e que estava acompanhado, mas quando percebi que ela estava magoada, achei que precisava acertar os ponteiros com ela pra poder seguir em frente com você.”
“Não entendi nada. Você me deixou de lado por causa dela. É isso que você chama
de seguir em frente comigo?”
“Eu pisei na bola com Corinne, Demetria.” Ele levantou meu queixo para limpar meus
olhos borrados. “Nós nos conhecemos no meu primeiro ano de universidade. Ela chamou
minha atenção, é claro, toda linda e meiga, incapaz de dizer uma palavra desagradável
sobre quem quer que seja. Quando veio atrás de mim, eu me deixei levar e tive minha
primeira experiência sexual de comum acordo com ela.”
“Eu a odeio.”
Ele abriu um sorrisinho ao ouvir isso.
“Não estou brincando, Joseph. Esta conversa está me matando de ciúme.”
“Com ela era só sexo, meu anjo. Com você, por mais violento e selvagem que seja,
eu sempre faço amor. Desde a primeira vez. Você é a única pessoa capaz de fazer com que eu me sinta assim.”
Suspirei. “Está bem. Estou um pouquinho melhor.”
Ele me beijou. “Acho que dá para dizer que nós namoramos. Só fazíamos sexo um
com o outro e íamos a vários lugares juntos. Ainda assim, quando ela disse que me amava,
foi uma surpresa. Uma surpresa agradável. Eu gostava dela. Da companhia dela.”
“E pelo jeito ainda gosta”, resmunguei.
“Me deixe falar.” Ele me castigou batendo com o dedo na ponta do meu nariz.
“Pensei que eu poderia estar apaixonado também, da minha maneira... da única maneira
que eu conhecia. Não queria ver Corinne com outra pessoa. Então aceitei quando ela propôs o casamento.”
Eu me afastei para olhar bem para ele. “Ela propôs o casamento?”
“Não precisava ficar tão surpresa”, ele falou, irônico. “Você está acabando com
meu ego.”
O alívio tomou conta de mim com tamanha velocidade que fiquei até tonta.
Atirei-me sobre ele, abraçando-o com a maior força de que era capaz.
“Ei.” Ele retribuiu o abraço com a mesma avidez. “Está tudo bem?”
“Melhorando.” Agarrei seu rosto entre as minhas mãos. “Continue falando.”
“Aceitei pelos motivos errados. Estávamos saindo fazia dois anos, e nunca tínhamos
nem dormido juntos. Nunca falamos sobre as coisas que eu converso com você. Ela não me conhece, pelo menos não de verdade, mas ainda assim acabei me convencendo de que ser amado bastava. E quem seria capaz de fazer isso melhor que ela?”
Joseph passou a concentrar sua atenção em meu outro olho, removendo as manchas pretas. “Acho que ela esperava que o noivado fosse fazer o relacionamento decolar. Que eu fosse me abrir mais. Que dormisse com ela no hotel — que ela considerava muito romântico, aliás — em vez de ir logo pra casa por causa das aulas no dia seguinte... Sei lá.”
Tudo isso me mostrou como ele era uma pessoa solitária. Meu pobre Joseph. Tinha
passado tanto tempo sozinho. Talvez a vida inteira.
“E de repente ela pode ter terminado tudo um ano depois”, ele continuou, “pra
tentar dar uma sacudida nas coisas. Pra me obrigar a fazer um esforço pra ficar com ela. Em vez disso, fiquei aliviado, porque já estava começando a entender que seria impossível pra mim morar sob o mesmo teto que ela. Que desculpa eu teria que arrumar para continuar dormindo sozinho e ter um espaço só pra mim?”
“Você nunca pensou em contar pra ela?”
“Não.” Ele encolheu os ombros. “Até conhecer você, não encarava meu passado
como um problema. Até achava que ele tinha influência na maneira como eu conduzia as
coisas, mas tudo tinha seu lugar e eu não me considerava infeliz. Na verdade, achava que
levava uma vida confortável e descomplicada.”
“Ops.” Franzi o nariz. “Olá, senhor Confortável. Eu sou a senhorita Complicada.”
Ele abriu um sorriso. “Com você, nada é previsível ou tedioso.”
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Capítulo 28
Na terça-feira, fui trabalhar usando calça e uma blusa de seda de mangas compridas,
sentindo a necessidade de estabelecer uma barreira entre mim e o restante do mundo. Na
cozinha, Joseph pegou meu rosto entre as mãos e me beijou com um carinho apaixonante.
Seu olhar permanecia perturbado.
“Almoço hoje?”, sugeri, sentindo que ainda precisávamos restabelecer a intimidade
e a confiança entre nós.
“Tenho um almoço de negócios.” Ele passou os dedos por meus cabelos soltos.
“Você quer ir? Angus pode levar você de volta a tempo.”
“Eu adoraria.” Lembrei-me da agenda de eventos noturnos, reuniões e consultas que
ele havia mandado para meu celular. “E amanhã à noite temos um jantar beneficente no
Waldorf-Astoria?”
Sua expressão se amenizou. Vestido para trabalhar, ele parecia um tanto deprimido,
apesar de absolutamente controlado. Mas eu sabia muito bem como ele se sentia.
“Você não vai desistir mesmo de mim, não é?”, ele perguntou com a voz baixa.
Levantei a mão direita e mostrei meu anel. “Você está amarrado a mim, Jonas. Pode
ir se acostumando.”
No caminho do trabalho, ele me sentou no seu colo, assim como na hora do almoço,
enquanto nos deslocávamos até o Jean Georges. Não falei mais de dez palavras durante a
refeição, que Joseph escolheu para mim e estava maravilhosa.
Fiquei sentada em silêncio a seu lado, com a mão esquerda sobre sua perna firme
sob a toalha da mesa, uma afirmação não verbal de meu comprometimento com ele.
Conosco. Uma de suas mãos segurava a minha, quente e forte, enquanto ele conversava
sobre um novo empreendimento em Saint Croix. Mantivemos esse contato durante todo o
tempo, preferindo comer com uma mão só a ter de abrir mão daquele toque.
A cada hora que se passava, eu sentia o terror da noite anterior ficar mais distante de
nós. Seria apenas uma cicatriz a mais em sua coleção, outra lembrança amarga que ele
sempre teria, uma recordação e um medo que também seriam meus, mas que não mudariam nada entre nós. Nós não íamos permitir que isso acontecesse.
Angus estava a postos para me levar para casa quando o expediente terminou.
Joseph ficaria no trabalho até mais tarde, e iria direto do Jonas Building para o consultório do dr. Petersen. Aproveitei o trajeto para me preparar mentalmente para mais uma semana de treinamento com Parker. Até pensei em faltar, mas no fim cheguei à conclusão de que era
importante manter uma rotina. Já havia descontrole demais na minha vida naquele
momento. Cumprir meus compromissos era uma das poucas coisas que ainda dependiam
somente de mim.
Depois de uma hora e meia de golpes de mão aberta e trabalho de solo com Parker,
eu me senti aliviada quando Clancy me deixou em casa — e orgulhosa de mim mesma por
ter ido treinar apesar de ser a última coisa que eu queria naquele dia.
Quando entrei no saguão, dei de cara com Trey na recepção.
“Oi”, eu cumprimentei. “Está subindo?”
Ele se virou para mim, com seus olhos brilhantes e seu sorriso aberto. Trey tinha
uma suavidade nos modos, uma espécie de ingenuidade sincera, que o tornava diferente de todas as pessoas com quem Cary já havia se relacionado. Ou talvez eu devesse dizer apenas que Trey era “normal”, algo raro tanto na minha vida como na de Cary.
“Cary não está”, ele disse. “Ninguém atendeu ao interfone.”
“Você pode subir comigo e esperar lá. Não vou sair mais hoje.”
“Se você não se incomodar.” Ele foi junto comigo quando acenei para a menina da
recepção e tomei o caminho do elevador. “Eu trouxe uma coisinha pra ele.”
“Claro que não me incomodo”, garanti, retribuindo seu sorriso gentil.
Ele olhou para minha calça de ioga e meu top de ginástica. “Está vindo da
academia?”
“Pois é. Apesar de ser a última coisa que eu gostaria de ter feito hoje.”
Trey deu risada ao entrar no elevador. “Sei bem como é.”
Enquanto subíamos, o silêncio se estabeleceu. E começou a pesar.
“Está tudo bem?”, perguntei.
“Bom...” Trey ajeitou a alça da mochila. “Cary anda meio distante ultimamente.”
“Ah, é?” Mordi os lábios. “Em que sentido?”
“Não sei. Não consigo explicar. Acho que tem alguma coisa acontecendo com ele e
não sei o que é.”
Pensei na modelo loira e gelei por dentro. “Vai ver ele está estressado por causa do
trabalho para a Grey Isles e não quer incomodar você com isso. Ele sabe que você já tem
muito com que se preocupar, com o trabalho e a faculdade.”
A tensão em seus ombros se aliviou um pouco. “Talvez seja isso mesmo. Faz
sentido. Pode ser. Obrigado.”
Abri a porta do apartamento e disse a ele que se sentisse à vontade. Trey foi deixar
suas coisas no quarto de Cary e eu fui até o telefone para ver se havia alguma mensagem.
Um grito vindo do corredor me fez pegar o telefone por outro motivo, com o
coração na mão de medo de algum invasor ou outro perigo iminente. Mais gritos se
seguiram, e em um deles reconheci claramente a voz de Cary.
Soltei um suspiro de alívio. Com o telefone na mão, arrisquei-me a ir ver o que
estava acontecendo. Quase fui atropelada por Tatiana, que saiu do corredor ainda
abotoando a blusa.
“Ops”, ela disse, abrindo um sorrisinho sem nenhuma culpa. “Até mais.”
Os gritos de Trey impediram que eu ouvisse quando ela fechou a porta do
apartamento atrás de si.
“Porra, Cary. A gente conversou sobre isso! Você prometeu!”
“Você está exagerando”, rebateu Cary, também aos berros. “Não é o que você está
pensando.”
Trey saiu pisando duro do quarto, e com tamanha pressa que eu tive que me
espremer junto à parede para sair do caminho. Cary foi atrás, enrolado num lençol até a
cintura. Quando passou por mim, eu o olhei de um jeito que não deve ter sido muito
agradável, porque em resposta ele me mostrou o dedo do meio.
Deixei que os dois se virassem e fui tomar banho, furiosa com Cary por ele ter mais
uma vez arruinado uma das poucas coisas boas em sua vida. Era um padrão que eu nunca
deixaria de esperar que fosse quebrado, apesar de ele parecer incapaz de fazer isso.
Quando fui até a cozinha, meia hora depois, o silêncio dentro do apartamento era
absoluto. Concentrei-me em cozinhar, decidindo fazer lombo assado com batatas e
aspargos, um dos pratos preferidos de Cary, para o caso de ele querer jantar em casa e
precisar de algo para se animar.
Fiquei surpresa ao ver Trey saindo do corredor enquanto eu punha a comida no
forno, um pouco triste. Não gostei nada de vê-lo todo vermelho, descabelado e chorando.
Minha piedade se transformou em decepção furiosa quando Cary apareceu na cozinha
cheirando a suor e sexo. Ele me olhou feio ao passar por mim para pegar um vinho na
adega.
Eu o encarei com os braços cruzados. “Trepar com um namorado traído na mesma cama em que ele pegou você com outra não ajuda muito.”
“Cale a boca, Demetria.”
“Ele deve estar se odiando por ter cedido.”
“Eu mandei calar a boca, porra.”
“Tudo bem.” Dei as costas para ele e comecei a temperar as batatas para levar ao
forno junto com o lombo.
Cary pegou duas taças no armário. “Pelo jeito você também está me julgando. Se
ele tivesse me pegado com outro homem, provavelmente não faria essa cena toda.”
“Então é tudo culpa dele?”
“Só pra lembrar: sua vida amorosa também não é nada perfeita.”
“Golpe baixo, Cary. Eu é que não vou me sujeitar a ser seu saco de pancadas. Foi
você que estragou tudo, e depois ainda conseguiu piorar as coisas. O problema é todo seu.”
“Não vem querer dar uma de superior, não. Você está dormindo com um homem
que vai acabar te estuprando, mais cedo ou mais tarde.”
“Não é nada disso!”
Ele soltou um riso de deboche e se encostou no balcão, olhando-me com seus olhos
verdes inundados de mágoa e raiva. “Se você vai arrumar justificativas para ele porque
estava dormindo quando te atacou, vai ter que fazer o mesmo para os bêbados e drogados. Eles também não sabem o que fazem.”
A verdade que havia naquelas palavras me atingiu duramente, assim como o fato de
ele tê-las dito só para me magoar. “Parar de beber as pessoas conseguem, mas deixar de
dormir, não.”
Cary se endireitou, abriu a garrafa que havia escolhido e serviu duas taças,
empurrando uma para o outro lado do balcão, para mim. “Se existe alguém que sabe o que é se envolver com pessoas que só trazem mágoas, esse alguém sou eu. Você o ama. Você quer salvá-lo. Mas quem vai salvar você, Demetria? Eu não vou estar sempre por perto quando
estiver com ele, e o cara é uma bomba-relógio.”
“Você quer falar sobre relacionamentos que só trazem mágoas, Cary?”, rebati,
tirando o foco da conversa das verdades incômodas a meu respeito. “Você, que traiu Trey
só pra se proteger? Você percebeu que fez de tudo para afastar o cara antes que surgisse
alguma chance de ele te decepcionar?”
Cary abriu um sorriso amargo. Ele bateu sua taça na minha, que ainda estava sobre
o balcão. “Um brinde a nós, os seriamente perturbados. Pelo menos temos um ao outro.”
Ele saiu da sala e eu desabei. Sabia que isso estava por vir — parecia tudo bom
demais para ser verdade. O bem-estar e a felicidade nunca duravam muito na minha vida, e nunca passavam de mera ilusão.
Sempre havia algo escondido nas entrelinhas, a postos para vir à tona e arruinar
tudo.
Joseph chegou bem na hora em que o jantar estava saindo do forno. Estava com um
terno embalado numa das mãos e um laptop numa maleta na outra. Estava preocupada que
ele fosse para casa depois da sessão com o dr. Petersen, e fiquei aliviada quando recebi sua ligação avisando que estava a caminho. Ainda assim, quando abri a porta e pus os olhos nele, senti um calafrio.
“Oi”, ele disse baixinho enquanto me seguia até a cozinha. “O cheiro aqui está uma
delícia.”
“Espero que você esteja com fome. Fiz um monte de comida, e acho que Cary não
vai aparecer para ajudar a comer.”
Joseph deixou suas coisas perto do balcão e foi até mim com passos cautelosos,
procurando meus olhos enquanto se aproximava. “Trouxe algumas coisas para passar a
noite aqui, mas posso ir embora se você quiser. A qualquer hora. É só dizer.”
Expirei em uma bufada, determinada a não deixar o medo comandar minhas ações.
“Quero que você fique.”
“E eu quero ficar.” Ele parou ao meu lado. “Posso te abraçar?”
Eu me virei para ele e o apertei bem forte. “Por favor.”
Joseph apertou o rosto contra o meu e me abraçou. Não era um abraço gostoso e
natural como de costume. Havia um desgaste entre nós, algo que nunca tínhamos
experimentado juntos.
“Como você está?”, ele murmurou.
“Melhor agora que você chegou.”
“Mas ainda está nervosa.” Ele beijou minha testa. “Eu também. Não sei como
vamos conseguir dormir juntos de novo.”
Recuando um pouco, olhei bem para ele. Era o que eu temia também, e minha
conversa com Cary não tinha ajudado muito. O cara é uma bomba-relógio...
“Nós damos um jeito”, respondi.
Ele ficou em silêncio por um bom tempo. “Nathan já tentou entrar em contato com
você?”
“Não.” Ainda assim, eu morria de medo de encontrá-lo de novo algum dia, fosse
por acidente ou deliberadamente. Ele estava em algum lugar do mundo, respirando o
mesmo ar que eu... “Por quê?”
“Fiquei pensando sobre isso hoje.”
Dei um passo atrás para olhar seu rosto, e senti um nó na garganta ao perceber como
estava chateado. “Por quê?”
“Porque existe um bocado de coisa entre nós.”
“Você está achando que é coisa demais?”
Ele sacudiu a cabeça. “Não consigo pensar assim.”
Eu não soube o que fazer, nem o que dizer. Que garantia poderia dar a ele se não
sabia que meu amor e a necessidade que ele sentia de ficar comigo seriam suficientes para fazer nossa relação dar certo?
“E você, está pensando em quê?”, ele perguntou.
“Na comida no forno. Estou morrendo de fome. Você pode perguntar a Cary se ele
quer comer? Depois podemos jantar.”
Cary estava dormindo, então Joseph e eu jantamos na mesa à luz de velas depois
que ele tomou banho, uma refeição um tanto formal para quem estava de camiseta velha e calça de pijama. Eu estava preocupada com Cary, mas precisava muito de um tempinho
tranquilo a sós com Joseph.
“Almocei com Magdalene no escritório ontem”, ele disse depois de começarmos a
comer.
“Ah, é?” Então quer dizer que, enquanto eu saía atrás de um anel, Magdalene Perez
estava a sós com meu namorado?
“Não precisa ficar assim”, ele me censurou. “Ela almoçou em um escritório
dominado por suas flores, com você me mandando beijinhos da minha mesa. Você estava
tão presente ali quanto ela.”
“Desculpe. O primeiro impulso é esse mesmo.”
Ele pegou minha mão e a beijou com força. “Fico aliviado por você ainda sentir
ciúmes de mim.”
Suspirei. Meus sentimentos ficaram à flor da pele durante o dia todo; não conseguia
me decidir sobre como me sentia a respeito de nada. “Você falou com ela sobre
Christopher?”
“Foi por isso que a chamei para almoçar. Mostrei o vídeo pra ela.”
“Quê?” Eu franzi a testa ao lembrar que meu telefone tinha ficado sem bateria no
carro. “Como você fez isso?”
“Levei seu celular pro escritório e passei o vídeo pro computador. Você não reparou
que eu o trouxe de volta pra cá ontem à noite, com a bateria carregada?”
“Não.” Larguei os talheres. Dominante ou não, Joseph precisava que alguns limites
bem claros para o espaço pessoal de cada um fossem estabelecidos. “Você não pode
simplesmente hackear meu celular, Joseph.”
“Não precisei hackear nada. Não tem senha.”
“Não importa! Isso é invasão de privacidade, porra. Minha nossa...” Por que
ninguém conseguia entender que eu tinha direito a meu espaço? “Você gostaria que eu
ficasse fuçando nas suas coisas?”
“Não tenho nada a esconder.” Ele tirou seu celular do bolso da calça de moletom e
entregou para mim. “E você também não deve ter.”
Eu não queria brigar num momento como aquele, em que as coisas estavam tão
abaladas entre nós, mas não dava mais para relevar o assunto. “Não interessa se tenho ou
não alguma coisa a esconder. Tenho direito ao meu espaço e à minha privacidade, e você
precisa pedir antes de ir atrás de informações a meu respeito e antes de mexer nas minhas coisas. Você precisa parar com essa mania de fazer de tudo sem minha permissão.”
“E o que aquele vídeo tinha a ver com privacidade?”, ele perguntou franzindo a
testa. “Foi você mesma que me mostrou.”
“Você está parecendo minha mãe, Joseph!”, eu gritei. “Uma maluca pra mim já
basta.”
Ele recuou diante de minha agressividade, claramente surpreso ao ver que eu estava
chateada de verdade. “Está certo. Desculpe.”
Dei um gole no vinho, lutando para recuperar a tranquilidade. “Está se desculpando
por ter me irritado? Ou por ter feito o que fez?”
Joseph demorou alguns instantes para responder. “Por ter irritado você.”
Ele não tinha entendido nada. “Você não consegue ver como isso é bizarro?”
“Demetria.” Ele suspirou e gesticulou. “Passo um tempão do meu dia dentro de você.
Quando você estabelece esses limites, só consigo ver como uma coisa arbitrária.”
“Pois não tem nada de arbitrário. É importante pra mim. Se você quiser saber alguma coisa a meu respeito, precisa me perguntar.”
“Certo.”
“Não faça mais isso”, avisei. “Não estou brincando, Joseph.”
Ele cerrou os dentes. “Está bem. Já entendi.”
Como eu realmente não estava a fim de brigar, retomei a conversa anterior. “O que
ela falou quando viu o vídeo?”
Ele relaxou visivelmente. “Foi difícil, é claro. Principalmente por saber que eu já
tinha visto.”
“Ela viu a gente na biblioteca.”
“Não tocamos nesse assunto diretamente, mas o que eu poderia dizer? Não vou me
desculpar por transar com minha namorada entre quatro paredes.” Ele se recostou na
cadeira e bufou. “Ver a cara de Christopher no vídeo... Ver exatamente o que ele pensa
dela... Foi isso que a magoou. É difícil descobrir que está sendo usado dessa forma.
Principalmente por alguém que você acha que conhece, que diz gostar de você.”
Para esconder minha reação, tratei de reabastecer as duas taças de vinho. Ele falou
como se já tivesse sentido aquilo na pele. O que exatamente teria acontecido com Joseph?
Depois de um rápido gole de vinho, perguntei: “E como você está lidando com
isso?”.
“O que posso fazer? Durante anos, tentei conversar com Christopher de todas as
maneiras. Já tentei dar dinheiro pra ele. Já tentei ameaçar meu irmão. Ele nunca mostrou o menor sinal de mudança. Percebi há muito tempo que o máximo que posso fazer é amenizar as consequências dos atos dele. E manter você à maior distância possível.”
“Agora que sei disso, vou fazer de tudo pra ficar longe.”
“Ótimo.” Ele deu um gole no vinho, olhando-me por cima da taça. “Você não me
perguntou como foi a consulta com o doutor Petersen.”
“Não é da minha conta. A não ser que você queira contar.” Olhei bem pra ele, na
esperança de que fizesse isso. “Estou aqui pra ouvir o que você quiser falar, mas não vou
ficar insistindo. Quando estiver pronto pra se abrir comigo, fique à vontade. Mas adoraria
saber se você gostou dele.”
“Por enquanto.” Joseph sorriu. “Ele me faz falar várias vezes a mesma coisa.
Poucas pessoas são capazes de me convencer disso.”
“Verdade. Ele faz a gente repensar e ver as coisas por outro ângulo, faz a gente
refletir sobre por que não pensou naquilo antes.’”
Os dedos de Joseph subiam e desciam pela haste da taça. “Ele me receitou um
remédio para tomar antes de ir pra cama. Comprei no caminho pra cá.”
“Como você se sente a respeito de tomar remédios?”
Ele me olhou com os olhos sombrios. “Acho que é algo necessário. Preciso de você
e quero mantê-la segura, custe o que custar. O doutor Petersen disse que esse medicamento, combinado a terapia, tem ótimo resultado no tratamento de casos de parassonia sexual atípica. Não tenho por que duvidar disso.”
Eu me inclinei para a frente e apertei sua mão. Tomar remédios era um grande
passo, principalmente para alguém que tinha evitado encarar o problema por tanto tempo.
“Obrigada.”
Joseph retribuiu o aperto com força. “Ao que parece existe um monte de gente com
esse problema em grupos de estudos do sono. Ele me contou sobre um caso documentado
de um homem que atacou a esposa durante o sono por doze anos antes de procurar ajuda.”
“Doze anos? Minha nossa.”
“Eles demoraram tanto assim porque pelo jeito o cara transava melhor dormindo
que acordado”, Gideon complementou, sarcástico. “Se isso não é motivo para destruir o ego de alguém, não sei o que é.”
Olhei bem nos olhos dele. “Que merda.”
“Pois é.” O sorriso irônico desapareceu de seu rosto. “Mas não quero forçar você a
dormir comigo, Demetria. Não existe remédio milagroso. Posso dormir no sofá ou ir pra casa, apesar de preferir o sofá. Meu dia fica melhor quando vamos juntos pro trabalho.”
“O meu também.”
Joseph pegou minha mão e a levou aos lábios. “Nunca imaginei que teria isso na
minha vida... Alguém que sabe tanto sobre mim como você. Alguém que consegue
conversar sobre meus traumas durante o jantar porque me aceita como sou... Muito
obrigado por você existir, Demetria.”
Meu coração quase parou, e uma dor gostosa se espalhou por meu peito. Ele sabia
mesmo como dizer coisas bonitas, perfeitas.
“Sinto a mesma coisa por você, figurão.” E talvez mais, porque eu o amava. Mas
não disse isso em voz alta. Algum dia ele chegaria lá. Eu não desistiria enquanto ele não
fosse absoluta e irrevogavelmente meu.
Com os pés descalços sobre a mesa de centro e o computador no colo, Joseph
parecia tão à vontade e relaxado que eu não conseguia prestar atenção na tevê.
Como chegamos até aqui?, perguntei-me mentalmente. Esse homem absurdamente
sexy e eu?
“O que você está olhando?”, ele murmurou sem tirar os olhos da tela do laptop.
Mostrei a língua para ele.
“Está se insinuando sexualmente pra mim, senhorita Lovato?”
“Como você consegue me ver enquanto está vidrado aí no computador?”
Ele desviou sua atenção da tela. Seus olhos azuis irradiavam poder e tesão. “Vejo
você o tempo todo, meu anjo. Desde que nos encontramos pela primeira vez. Não tenho
olhos pra mais nada além de você.”
A quarta-feira começou com o pau de Joseph me penetrando por trás, meu novo
jeito favorito de acordar.
“Ora, ora”, eu disse com a voz rouca, esfregando os olhos para espantar o sono
enquanto seu braço envolvia minha cintura e me puxava para mais perto de seu peito
quente e forte. “Você está animadinho esta manhã.”
“E você está linda e gostosa todas as manhãs”, ele murmurou, mordendo meu
ombro. “Adoro acordar ao seu lado.”
Comemoramos a noite ininterrupta com uma bela sessão de orgasmos.
Bem mais tarde naquele dia, fui almoçar com Mark e seu companheiro Steven em
um restaurante mexicano delicioso escondido sob o nível da rua. Ao descer apenas alguns
degraus de cimento, encontramos um restaurante surpreendentemente espaçoso e
iluminado, com garçons e garçonetes muito bem vestidos.
“Você precisa vir aqui qualquer dia com seu namorado”, comentou Steven, “e pedir para ele te pagar uma margarita de romã.”
“É boa?”, perguntei.
“Ô, se é.”
Quando a garçonete veio tirar nosso pedido, começou a paquerar descaradamente
Mark, usando e abusando de seus olhos com cílios longos de fazer inveja. Mark entrou na
dela. À medida que o tempo passava, a ruiva exuberante — cujo crachá informava que se
chamava Shawna — foi ficando mais ousada, acariciando os ombros e a nuca dele toda vez que passava pela mesa. Ao mesmo tempo, as respostas de Mark foram ficando mais
sugestivas, a ponto de olhar para Steven e ver seu rosto ficar vermelho e sua expressão
mudar. Remexendo-me o tempo todo na cadeira, eu estava contando os minutos para que
aquela refeição carregada de tensão terminasse logo.
“Vamos sair juntos hoje à noite”, Shawna disse para Mark ao trazer a conta. “Uma
noite comigo e você está curado.”
Prendi a respiração. Não podia acreditar no que estava ouvindo.
“Às sete horas está bom pra você?”, perguntou Mark em um tom de voz sedutor.
“Vou acabar com você, Shawna. Você nem imagina quanto tempo faz que...”
Engasguei com a água e comecei a tossir.
Steven levantou correndo e foi até o outro lado da mesa bater nas minhas costas.
“Que coisa, Demetria”, ele falou, aos risos. “Estamos só brincando com você. Não precisa se matar por nossa causa.”
“Quê?”, perguntei quase sem fôlego, com os olhos cheios de lágrimas.
Sorrindo, ele passou por trás de mim e abraçou a garçonete. “Demetria, essa é minha irmã Shawna. Shawna, Demetria é aquela que eu falei que está facilitando a vida de Mark.”
“Que ótimo”, disse Shawna, “já que você não facilita a vida dele em nada.”
Steven piscou para mim. “É por isso que ele não me larga.”
Vendo os irmãos lado a lado, enfim captei a semelhança, que até então havia
passado despercebida. Recostei-me na cadeira e estreitei os olhos para Mark. “Isso foi
golpe baixo. Pensei que Steven fosse ter um ataque.”
Mark levantou as mãos em sinal de rendição. “Foi ideia dele. Steven adora um
drama, você sabe.”
Ele sorriu e rebateu: “Ora, Demetria, você sabe que Mark é o mentor intelectual do nosso relacionamento...”.
Shawna tirou um cartão de visitas do bolso e entregou para mim. “Meu número está
no verso. Dê uma ligadinha pra mim quando puder. Conheço os podres desses dois. Você
pode dar o troco em grande estilo.”
“Traidora”, acusou Steven.
“Ei”, Shawna encolheu os ombros. “As mulheres precisam se unir.”
Depois do trabalho, Joseph e eu fomos à academia dele. Angus nos deixou bem na
frente e, quando entramos, o lugar estava bombando; até o vestiário estava lotado. Eu me troquei, guardei minhas coisas e encontrei Joseph no corredor.
Acenei para Daniel, o instrutor com quem havia conversado na primeira visita à
CrossTrainer, e levei um tapa na bunda por isso.
“Ei”, protestei, devolvendo o tapa na mão repressora de Joseph. “Pare com isso.”
Ele puxou meu rabo de cavalo, forçando minha cabeça para trás, e marcou seu
território me dando um beijo profundo e lascivo.
O jeito como ele puxou meu cabelo me deixou toda arrepiada. “Se essa é sua ideia
de reprimenda”, sussurrei com os lábios bem próximos dos dele, “fique sabendo que parece mais um incentivo.”
“Estou disposto a pegar mais pesado, se necessário.” Ele mordeu meu lábio inferior.
“Mas sugiro que você não teste meus limites dessa maneira, Demetria.”
“Não se preocupe. Tenho outras maneiras de fazer isso.”
Joseph foi correr na esteira primeiro, proporcionando-me o prazer de ver seu corpo
brilhando de suor... em público. Por mais que eu o visse assim o tempo todo em particular, era sempre uma visão e tanto.
E, minha nossa, como ele ficava lindo com o cabelo todo para trás... Seus músculos
flexionados sob a pele levemente bronzeada... A graciosidade poderosa de seus
movimentos... Ver aquele homem elegantérrimo tirar o terno e mostrar seu lado animal me deixava cheia de tesão.
Eu não conseguia parar de olhar, e ainda bem que não precisava. Ele era meu, afinal
de contas, uma constatação que fez um calor subir por meu corpo. Além disso, as outras
mulheres da academia estavam fazendo o mesmo. Quando ele trocava de aparelho, dezenas de olhos admirados o seguiam.
Quando ele me surpreendia nesses momentos, eu lançava um olhar sugestivo e
passava a língua pelos lábios. Sua sobrancelha erguida e seu meio-sorriso perverso me
provocaram um frio na barriga. Não me lembro de algum dia ter tido tanta disposição para malhar. Uma hora e meia passavam voando.
Quando voltamos para o Bentley a caminho da cobertura, eu não conseguia parar
quieta no assento. Lançava olhares e mais olhares insinuantes para Joseph.
Ele segurou minha mão. “Você vai ter que esperar.”
Tomei um susto ao ouvir aquilo. “Quê?”
“Você ouviu muito bem.” Ele beijou meus dedos e teve a cara de pau de abrir um
sorriso pervertido. “Vamos prolongar o estado de excitação, meu anjo.”
“E por que faríamos isso?”
“Imagine o quanto vamos estar malucos um pelo outro depois do jantar.”
Cheguei mais perto para que Angus não me ouvisse, apesar de saber que ele era
profissional o bastante para ignorar nossas conversas. “A gente nem precisa prolongar a
espera pra ficar maluco...”
Mas ele não cedeu. Em vez disso, deu início a um processo de tortura. Despimos um
ao outro e entramos no chuveiro, acariciando as curvas e as reentrâncias de nossos corpos.
Depois nos vestimos para o jantar. Ele estava todo formal, mas dispensou a gravata. Sua
camisa imaculadamente branca estava aberta no colarinho, revelando um pouco de pele. O vestido que ele reservou para mim era um Vera Wang champanhe com bustiê sem alça,
costas abertas e uma saia pregada que ia até um pouco acima dos joelhos.
Sorri quando ele olhou para mim, sabendo que ficaria maluco me vendo naquele
vestido a noite inteira. Era maravilhoso e eu tinha adorado, mas foi feito para ser usado por modelos bem altas e magras, e não por mulheres baixinhas e cheias de curvas. Em um
acesso de vergonha, eu havia deixado meu cabelo cair por cima dos seios, mas não tinha
adiantado muito, conforme a expressão de Joseph indicava.
“Minha nossa, Demetria.” Ele se ajeitou dentro da calça. “Mudei de ideia sobre o vestido. Você não deveria usar isso em público.”
“Agora é tarde demais pra mudar de ideia.”
“Pensei que ele tivesse mais pano que isso.”
Encolhi os ombros, sorrindo. “Não posso fazer nada. Foi você que comprou.”
“Mas eu me arrependi. Quanto tempo você demora pra tirar?”
Passando a língua pelo lábio, respondi. “Não sei. Por que você não tenta descobrir?”
Ele ficou sério. “Nós nem sairíamos de casa se eu fizesse isso.”
“Eu não ia reclamar.” Ele estava lindo, e eu — como sempre — morria de tesão.
“Não tem um casaco que você possa vestir por cima? Uma parca, talvez? Ou um
sobretudo?”
Aos risos, peguei minha bolsinha de mão na gaveta e dei o braço para ele. “Não se
preocupe. Vai estar todo mundo ocupado demais olhando pra você. Ninguém vai nem
reparar em mim.”
Ele me olhou feio quando o arrastei para fora do quarto. “Estou falando sério. Seus
peitos cresceram? Eles estão quase pulando pra fora da roupa.”
“Tenho vinte e quatro anos, Joseph”, eu disse, irônica. “Já parei de me desenvolver
faz tempo. Você está me vendo como sou.”
“Sim, mas eu deveria ser o único a ver, já que sou o único que tem acesso liberado a
você.”
Quando chegamos à sala, durante o tempinho mínimo que demoramos para ir até o
elevador, admirei a beleza sóbria da casa de Joseph. Era deliciosamente acolhedora. O
charme europeu da decoração em estilo antigo era para lá de elegante, além de muito
confortável. A vista magnífica das janelas com arcadas complementava o ambiente, sem
destoar dele.
A mistura de tons escuros de madeira e de pedra, cores vivas e toques vívidos de
joias era claramente um luxo dos mais caros, assim como as obras de arte penduradas na
parede, mas de muito bom gosto. Ali ninguém se sentiria temeroso de tocar nas coisas, ou
pouco à vontade na hora de se sentar, com medo de estragar alguma antiguidade. A casa
dele não era esse tipo de lugar.
Entramos no elevador privativo e Joseph me encarou quando as portas se fecharam.
Ele foi logo tentando puxar meu vestido para cima.
“Se você puxar muito”, avisei, “logo mais o que vai aparecer vai ser minha
calcinha.”
“Droga.”
“Isso pode ser divertido. Posso fazer o papel da loirinha piranha que só quer saber
do seu pau e do seu dinheiro, e você pode fazer seu próprio papel — do playboy bilionário exibindo o brinquedinho novo. É só parecer entediado e tolerante enquanto eu me esfrego em você e fico tagarelando sobre suas imensas qualidades.”
“Isso não tem graça.” Logo depois seus olhos brilharam. “Que tal uma echarpe?”
Quando chegamos ao jantar em benefício da construção de um abrigo de
emergência para mulheres e crianças vítimas de abuso, tivemos que passar por um tapete
vermelho repleto de fotógrafos, o que me provocou uma crise de medo do excesso de
exposição. Concentrei-me em Joseph, porque nada era melhor para me fazer esquecer de todo o resto do que ele. E, exatamente por estar prestando tanta atenção nele, pude ver quando o homem que me levou até ali se transfigurou em sua persona pública.
A máscara cobriu seu rosto com naturalidade. Seus olhos perderam o brilho, sua
boca sensual ficou séria. Dava quase para sentir seu poder de isolamento envolvendo nós
dois. Havia um escudo entre nós e o restante do mundo, simplesmente porque aquela era a vontade dele. Caminhando ao seu lado, eu sabia que alguém só teria coragem de se
aproximar caso recebesse algum sinal de aprovação expressa.
Mas o aviso de “mantenha distância” não se estendia aos olhares. Joseph fez os
pescoços se torcerem ao entrar no salão. Eu me contraí toda ao notar a atenção que ele
estava atraindo, enquanto permanecia impassível.
Se eu tinha em mente ficar tagarelando sobre Joseph enquanto me esfregava nele,
era melhor entrar na fila. No momento exato em que paramos de andar, fomos cercados por todos os lados. Eu me afastei para abrir espaço àquelas pessoas ansiosas por sua atenção e circulei por ali à procura de uma taça de champanhe. A Waters Field & Leaman tinha participado da campanha de divulgação do evento criando um anúncio, e eu vi por ali alguns rostos conhecidos.
Tinha acabado de tirar uma taça da bandeja de um garçom que passava por ali
quando ouvi alguém chamar meu nome. Ao me virar, dei de cara com o sobrinho de
Stanton e seu enorme sorriso, seus cabelos escuros e seus olhos verdes. Ele era mais ou
menos da minha idade. Tínhamos nos conhecido em uma das visitas à minha mãe durante
as férias da faculdade, e fiquei feliz em vê-lo.
“Martin!” Eu o cumprimentei com um rápido abraço. “Como vão as coisas? Você
está um gato.”
“Eu ia dizer a mesma coisa.” Ele me olhou, apreciando meu vestido. “Ouvi dizer
que você tinha se mudado pra Nova York e estava querendo te encontrar. Faz tempo que
está aqui?”
“Não muito. Algumas semanas.”
“Termine seu champanhe e vamos dançar”, ele disse.
O espumante ainda estava borbulhando alegremente pelo meu corpo quando fomos
para a pista de dança ao som de Billie Holiday cantando “Summertime”.
“E então”, ele começou, “está trabalhando?”
Enquanto dançávamos, contei sobre meu emprego e perguntei o que ele estava
fazendo. Não fiquei nada surpresa ao ouvir que ele trabalhava no banco de investimentos de Stanton e estava se saindo muito bem.
“Adoraria ir até Manhattan um dia desses almoçar com você”, ele disse.
“Seria ótimo.” Dei um passo atrás quando a música terminou e acabei esbarrando
em alguém. Suas mãos agarraram minha cintura para que eu não me desequilibrasse, e
quando olhei sobre os ombros vi que era Joseph.
“Olá”, ele cumprimentou, lançando um olhar gelado para Martin. “Nos apresente.”
“Joseph, esse é Martin Stanton. Nós nos conhecemos há um bom tempo. Ele é
sobrinho do meu padrasto.” Respirei fundo antes de continuar. “Martin, esse é o homem da minha vida no momento, Joseph Jonas.”
“Jonas.” Martin sorriu e estendeu a mão. “Sei quem você é, claro. Prazer em
conhecer. Pelo jeito, em breve vou começar a encontrar vocês nas reuniões de família.”
Joseph apoiou o braço no meu ombro. “Pode contar com isso.”
Martin foi chamado por algum conhecido, e se inclinou para a frente para me dar
um beijo na bochecha. “Eu ligo para combinar aquele almoço. Semana que vem, pode ser?”
“Claro.” Eu sentia toda a energia de Joseph pulsando bem ao meu lado, mas,
quando me virei, ele parecia tranquilo e impassível.
Joseph me tirou para dançar ao som de “What a Wonderful World”, na voz de
Louis Armstrong. “Não sei se gostei dele”, murmurou.
“Martin é um cara legal.”
“Desde que ele saiba que você é minha...” Ele me deu um beijo na testa e
posicionou sua mão no decote nas costas do meu vestido, pele com pele. Segurando-me
daquele jeito, ninguém ousaria duvidar que eu pertencia a ele.
Gostei da oportunidade de ficar tão próxima de seu corpo maravilhoso em público.
Respirando bem perto dele, deixei-me levar por sua conduta firme. “Adoro isso.”
Acariciando-me com o rosto, ele murmurou: “E é pra gostar mesmo”.
Uma enorme alegria. Durou o mesmo tempo que a dança.
Estávamos saindo da pista quando vi Magdalene parada em um canto. Demorei um
tempo para reconhecê-la, porque ela havia cortado o cabelo curtinho. Estava elegante e
cheia de classe em seu vestidinho preto, mas era totalmente eclipsada pela morena
lindíssima com quem conversava.
Joseph hesitou diante delas, reduzindo um pouco o ritmo da passada antes de seguir
adiante. Eu estava olhando para baixo, imaginando que havia algum obstáculo no chão,
quando ele disse baixinho: “Preciso apresentar você a alguém”.
Voltei a prestar atenção ao lugar para onde nos dirigíamos. A mulher ao lado de
Magdalene viu Joseph e se virou para olhá-lo. Senti seu antebraço se enrijecer sob meus
dedos no instante em que seus olhares se encontraram.
Dava para entender por quê.
Fosse quem fosse, aquela mulher estava completamente apaixonada por ele. Isso
estava estampado em seu rosto e em seus magníficos olhos azuis. Sua beleza era
estonteante, quase surreal. Seus cabelos eram pretíssimos, grossos e lisos, e iam quase até a cintura. Seu vestido tinha o mesmo tom glacial de seus olhos, envolvendo seu corpo
longilíneo de curvas perfeitas e sua pele dourada, bronzeada de sol.
“Corinne”, ele a saudou, e a rouquidão natural de sua voz se tornou ainda mais
pronunciada. Ele me soltou e pegou as mãos dela. “Você não me disse que já estava de
volta. Eu teria ido te buscar.”
“Deixei algumas mensagens no seu telefone”, ela disse, com o tom de voz tranquilo
de uma pessoa culta e bem-educada.
“Ah, eu quase não parei em casa ultimamente.” Isso fez Joseph lembrar que eu
estava ao seu lado, e ele a soltou e me puxou mais para perto. “Corinne, esta é Demetria Lovato.
Demetria, Corinne Giroux. Uma velha amiga.”
Estendi a mão e ela me cumprimentou.
“Qualquer amiga de Joseph é amiga minha também”, ela disse com um sorriso
ameno no rosto.
“Espero que isso se aplique a namoradas também.”
Ela me olhou como se já soubesse de tudo. “Principalmente a namoradas. Se você
me permitir, gostaria de apresentar Joseph a uma pessoa.”
“Claro.” Minha voz soava calma e controlada, mas eu estava bem longe disso.
Ele me deu um beijo indiferente na testa e ofereceu o braço a Corinne antes de se
afastar com ela, deixando-me embaraçosamente ao lado de Magdalene.
Senti pena dela, sinceramente. Parecia abandonada e desolada. “Seu cabelo ficou
uma graça, Magdalene.”
Ela olhou para mim sem abrir a boca, mas depois atenuou a situação com um
suspiro que me pareceu carregado de resignação. “Obrigada. Estava na hora de mudar.
Muitas coisas, aliás. Além disso, não havia por que continuar imitando o visual dela agora
que voltou.”
Franzi a testa, confusa. “Não entendi.”
“Estou falando de Corinne.” Ela olhou bem para mim. “Ah, você não sabe. Ela e
Joseph foram noivos por mais de um ano. Ela terminou tudo, casou com um ricaço francês
e se mudou para a Europa. Mas o casamento não deu certo. Eles estão se divorciando, e ela voltou pra Nova York.”
Noivo. Senti meu rosto ficar pálido e meu olhar se dirigir para o homem que eu
amava, ao lado da mulher que um dia ele havia amado, com as mãos na parte inferior de
suas costas para conduzi-la enquanto ela se inclinava em sua direção aos risos.
Senti meu estômago se revirar de ciúme e de medo, e foi quando me dei conta de
que nunca havia me perguntado se ele já havia tido uma relação romântica antes de mim.
Idiota. Lindo como era, eu deveria ter imaginado.
Magdalene pôs a mão no meu ombro. “É melhor você se sentar, Demetria. Está pálida.”
Eu estava mesmo ofegante, com os batimentos cardíacos perigosamente acelerados.
“Verdade.”
Sentei na primeira cadeira que encontrei. Magdalene se acomodou ao meu lado.
“Você está apaixonada por ele”, ela disse. “Eu não sabia. Desculpe. E desculpe pelo
que disse a você no dia em que nos conhecemos.”
“Você também está apaixonada por ele”, respondi, sem nenhuma emoção, com os
olhos fora de foco. “E naquela época eu não estava. Ainda não.”
“Isso não justifica o que eu fiz.”
Aceitei de bom grado uma taça de champanhe e peguei uma para Magdalene antes
que o garçom se afastasse. Brindamos em um gesto patético de solidariedade feminina. Eu queria sumir dali. Queria levantar e ir embora. Queria que Joseph percebesse que eu tinha ido, e que fosse atrás de mim. Queria que ele sentisse a mesma dor que eu. Ideias idiotas, imaturas e dolorosas povoavam minha mente e faziam com que eu me sentisse a mais insignificante das mulheres.
Consolei-me com o fato de Magdalene estar ali comigo. Ela sabia o que significava
ser apaixonada demais por Joseph. Senti que ela estava tão infeliz quanto eu, o que só
confirmava o tamanho da ameaça representada por Corinne.
Ele estava sofrendo esse tempo todo por ela? Era por isso que tinha se fechado de
tal forma para outras mulheres?
“Aí está você.”
Olhei para Joseph quando ele me encontrou. Obviamente, Corinne ainda estava
pendurada em seu braço, e pude observar bem o efeito que causavam como um casal. Eles ficavam insuportavelmente maravilhosos juntos.
Corinne se sentou ao meu lado e Joseph acariciou meu rosto com os dedos.
“Preciso ir falar com uma pessoa”, ele disse. “Quer que eu traga alguma coisa pra você na
volta?”
“Stoli com suco de cranberry. Dose dupla.” Eu precisava de alguma coisa para me
entorpecer. E muito.
“Certo.” Ele franziu a testa antes de se afastar.
“Estou tão feliz em te conhecer, Demetria”, disse Corinne. “Joseph falou muito sobre
você.”
“Não pode ter sido tanto assim. Vocês mal tiveram tempo de conversar.”
“Conversamos quase todos os dias.” Ela sorriu, e não havia nada de falso ou
malicioso em seu rosto. “Somos amigos há muito tempo.”
“Mais que amigos”, Magdalene fez questão de dizer.
Corinne olhou feio para Magdalene, e eu percebi que sua intenção era esconder essa informação de mim. Teria sido ideia dela ou de Joseph, ou dos dois em comum acordo?
Por que omitir algo se não havia nada a esconder?
“Sim, é verdade”, ela admitiu, visivelmente relutante. “Mas já faz alguns anos.”
Eu me virei na cadeira para encará-la. “Você ainda é apaixonada por ele.”
“Bom, você não pode me culpar. Qualquer mulher que passa algum tempo com ele
acaba apaixonada. Ele é lindo e inacessível. Uma combinação irresistível.” Seu sorriso
arrefeceu. “Joseph me disse que você o encorajou a começar a se abrir mais. Agradeço por isso.”
Por pouco não respondi: Não fiz isso pra você. Foi quando uma dúvida insidiosa se
instalou na minha cabeça, abrindo espaço para que uma de minhas vulnerabilidades
tomasse conta de meu pensamento.
E se eu tiver feito isso para ela sem saber?
Eu girava sem parar a base da taça vazia de champanhe sobre a mesa. “Ele ia casar
com você.”
“E foi o maior erro da minha vida ter terminado tudo.” Ela pôs a mão sobre a
garganta. Seus dedos se mexiam sem parar, como se brincassem com um colar que na
maior parte do tempo estava lá. “Eu era jovem, e em certas situações tinha medo dele. Era possessivo demais. Só depois de me casar descobri que a possessividade é melhor que a indiferença. Pelo menos pra mim.”
Olhei para o outro lado, lutando contra a ânsia de vômito que subia por minha
garganta.
“Você está tão quieta”, ela comentou.
“O que ela poderia dizer?”, soltou Magdalene.
Estávamos todas apaixonadas por ele. E disponíveis para ele. No fim, Joseph teria
que escolher uma de nós.
“Uma coisa você deve saber, Demetria”, recomeçou Corinne, lançando sobre mim seus
olhos límpidos verde-azulados, “ele me contou o quanto te considera especial. Precisei de um tempo para tomar coragem de voltar e ver vocês juntos. Cheguei inclusive a cancelar a viagem umas duas semanas atrás. Liguei para Joseph no meio de um evento em que ele daria um discurso, coitadinho, pra dizer que estava voltando e precisava de ajuda pra me instalar aqui.”
Fiquei paralisada, sentindo-me frágil como uma taça de cristal rachada. Ela devia
estar falando da noite em que Joseph e eu fizemos sexo pela primeira vez. Da noite em que estreamos sua limusine e ele imediatamente se retraiu todo, deixando-me sozinha logo depois.
“Quando ele me ligou de volta”, ela continuou, “disse que tinha conhecido alguém.
Que queria me apresentar a você quando eu chegasse. Acabei me acovardando. Ele nunca
havia me pedido pra conhecer uma mulher com quem estava.”
Ai, meu Deus. Dei uma olhada de relance para Magdalene. Joseph tinha me
abandonado naquela noite por causa dela. De Corinne.
sentindo a necessidade de estabelecer uma barreira entre mim e o restante do mundo. Na
cozinha, Joseph pegou meu rosto entre as mãos e me beijou com um carinho apaixonante.
Seu olhar permanecia perturbado.
“Almoço hoje?”, sugeri, sentindo que ainda precisávamos restabelecer a intimidade
e a confiança entre nós.
“Tenho um almoço de negócios.” Ele passou os dedos por meus cabelos soltos.
“Você quer ir? Angus pode levar você de volta a tempo.”
“Eu adoraria.” Lembrei-me da agenda de eventos noturnos, reuniões e consultas que
ele havia mandado para meu celular. “E amanhã à noite temos um jantar beneficente no
Waldorf-Astoria?”
Sua expressão se amenizou. Vestido para trabalhar, ele parecia um tanto deprimido,
apesar de absolutamente controlado. Mas eu sabia muito bem como ele se sentia.
“Você não vai desistir mesmo de mim, não é?”, ele perguntou com a voz baixa.
Levantei a mão direita e mostrei meu anel. “Você está amarrado a mim, Jonas. Pode
ir se acostumando.”
No caminho do trabalho, ele me sentou no seu colo, assim como na hora do almoço,
enquanto nos deslocávamos até o Jean Georges. Não falei mais de dez palavras durante a
refeição, que Joseph escolheu para mim e estava maravilhosa.
Fiquei sentada em silêncio a seu lado, com a mão esquerda sobre sua perna firme
sob a toalha da mesa, uma afirmação não verbal de meu comprometimento com ele.
Conosco. Uma de suas mãos segurava a minha, quente e forte, enquanto ele conversava
sobre um novo empreendimento em Saint Croix. Mantivemos esse contato durante todo o
tempo, preferindo comer com uma mão só a ter de abrir mão daquele toque.
A cada hora que se passava, eu sentia o terror da noite anterior ficar mais distante de
nós. Seria apenas uma cicatriz a mais em sua coleção, outra lembrança amarga que ele
sempre teria, uma recordação e um medo que também seriam meus, mas que não mudariam nada entre nós. Nós não íamos permitir que isso acontecesse.
Angus estava a postos para me levar para casa quando o expediente terminou.
Joseph ficaria no trabalho até mais tarde, e iria direto do Jonas Building para o consultório do dr. Petersen. Aproveitei o trajeto para me preparar mentalmente para mais uma semana de treinamento com Parker. Até pensei em faltar, mas no fim cheguei à conclusão de que era
importante manter uma rotina. Já havia descontrole demais na minha vida naquele
momento. Cumprir meus compromissos era uma das poucas coisas que ainda dependiam
somente de mim.
Depois de uma hora e meia de golpes de mão aberta e trabalho de solo com Parker,
eu me senti aliviada quando Clancy me deixou em casa — e orgulhosa de mim mesma por
ter ido treinar apesar de ser a última coisa que eu queria naquele dia.
Quando entrei no saguão, dei de cara com Trey na recepção.
“Oi”, eu cumprimentei. “Está subindo?”
Ele se virou para mim, com seus olhos brilhantes e seu sorriso aberto. Trey tinha
uma suavidade nos modos, uma espécie de ingenuidade sincera, que o tornava diferente de todas as pessoas com quem Cary já havia se relacionado. Ou talvez eu devesse dizer apenas que Trey era “normal”, algo raro tanto na minha vida como na de Cary.
“Cary não está”, ele disse. “Ninguém atendeu ao interfone.”
“Você pode subir comigo e esperar lá. Não vou sair mais hoje.”
“Se você não se incomodar.” Ele foi junto comigo quando acenei para a menina da
recepção e tomei o caminho do elevador. “Eu trouxe uma coisinha pra ele.”
“Claro que não me incomodo”, garanti, retribuindo seu sorriso gentil.
Ele olhou para minha calça de ioga e meu top de ginástica. “Está vindo da
academia?”
“Pois é. Apesar de ser a última coisa que eu gostaria de ter feito hoje.”
Trey deu risada ao entrar no elevador. “Sei bem como é.”
Enquanto subíamos, o silêncio se estabeleceu. E começou a pesar.
“Está tudo bem?”, perguntei.
“Bom...” Trey ajeitou a alça da mochila. “Cary anda meio distante ultimamente.”
“Ah, é?” Mordi os lábios. “Em que sentido?”
“Não sei. Não consigo explicar. Acho que tem alguma coisa acontecendo com ele e
não sei o que é.”
Pensei na modelo loira e gelei por dentro. “Vai ver ele está estressado por causa do
trabalho para a Grey Isles e não quer incomodar você com isso. Ele sabe que você já tem
muito com que se preocupar, com o trabalho e a faculdade.”
A tensão em seus ombros se aliviou um pouco. “Talvez seja isso mesmo. Faz
sentido. Pode ser. Obrigado.”
Abri a porta do apartamento e disse a ele que se sentisse à vontade. Trey foi deixar
suas coisas no quarto de Cary e eu fui até o telefone para ver se havia alguma mensagem.
Um grito vindo do corredor me fez pegar o telefone por outro motivo, com o
coração na mão de medo de algum invasor ou outro perigo iminente. Mais gritos se
seguiram, e em um deles reconheci claramente a voz de Cary.
Soltei um suspiro de alívio. Com o telefone na mão, arrisquei-me a ir ver o que
estava acontecendo. Quase fui atropelada por Tatiana, que saiu do corredor ainda
abotoando a blusa.
“Ops”, ela disse, abrindo um sorrisinho sem nenhuma culpa. “Até mais.”
Os gritos de Trey impediram que eu ouvisse quando ela fechou a porta do
apartamento atrás de si.
“Porra, Cary. A gente conversou sobre isso! Você prometeu!”
“Você está exagerando”, rebateu Cary, também aos berros. “Não é o que você está
pensando.”
Trey saiu pisando duro do quarto, e com tamanha pressa que eu tive que me
espremer junto à parede para sair do caminho. Cary foi atrás, enrolado num lençol até a
cintura. Quando passou por mim, eu o olhei de um jeito que não deve ter sido muito
agradável, porque em resposta ele me mostrou o dedo do meio.
Deixei que os dois se virassem e fui tomar banho, furiosa com Cary por ele ter mais
uma vez arruinado uma das poucas coisas boas em sua vida. Era um padrão que eu nunca
deixaria de esperar que fosse quebrado, apesar de ele parecer incapaz de fazer isso.
Quando fui até a cozinha, meia hora depois, o silêncio dentro do apartamento era
absoluto. Concentrei-me em cozinhar, decidindo fazer lombo assado com batatas e
aspargos, um dos pratos preferidos de Cary, para o caso de ele querer jantar em casa e
precisar de algo para se animar.
Fiquei surpresa ao ver Trey saindo do corredor enquanto eu punha a comida no
forno, um pouco triste. Não gostei nada de vê-lo todo vermelho, descabelado e chorando.
Minha piedade se transformou em decepção furiosa quando Cary apareceu na cozinha
cheirando a suor e sexo. Ele me olhou feio ao passar por mim para pegar um vinho na
adega.
Eu o encarei com os braços cruzados. “Trepar com um namorado traído na mesma cama em que ele pegou você com outra não ajuda muito.”
“Cale a boca, Demetria.”
“Ele deve estar se odiando por ter cedido.”
“Eu mandei calar a boca, porra.”
“Tudo bem.” Dei as costas para ele e comecei a temperar as batatas para levar ao
forno junto com o lombo.
Cary pegou duas taças no armário. “Pelo jeito você também está me julgando. Se
ele tivesse me pegado com outro homem, provavelmente não faria essa cena toda.”
“Então é tudo culpa dele?”
“Só pra lembrar: sua vida amorosa também não é nada perfeita.”
“Golpe baixo, Cary. Eu é que não vou me sujeitar a ser seu saco de pancadas. Foi
você que estragou tudo, e depois ainda conseguiu piorar as coisas. O problema é todo seu.”
“Não vem querer dar uma de superior, não. Você está dormindo com um homem
que vai acabar te estuprando, mais cedo ou mais tarde.”
“Não é nada disso!”
Ele soltou um riso de deboche e se encostou no balcão, olhando-me com seus olhos
verdes inundados de mágoa e raiva. “Se você vai arrumar justificativas para ele porque
estava dormindo quando te atacou, vai ter que fazer o mesmo para os bêbados e drogados. Eles também não sabem o que fazem.”
A verdade que havia naquelas palavras me atingiu duramente, assim como o fato de
ele tê-las dito só para me magoar. “Parar de beber as pessoas conseguem, mas deixar de
dormir, não.”
Cary se endireitou, abriu a garrafa que havia escolhido e serviu duas taças,
empurrando uma para o outro lado do balcão, para mim. “Se existe alguém que sabe o que é se envolver com pessoas que só trazem mágoas, esse alguém sou eu. Você o ama. Você quer salvá-lo. Mas quem vai salvar você, Demetria? Eu não vou estar sempre por perto quando
estiver com ele, e o cara é uma bomba-relógio.”
“Você quer falar sobre relacionamentos que só trazem mágoas, Cary?”, rebati,
tirando o foco da conversa das verdades incômodas a meu respeito. “Você, que traiu Trey
só pra se proteger? Você percebeu que fez de tudo para afastar o cara antes que surgisse
alguma chance de ele te decepcionar?”
Cary abriu um sorriso amargo. Ele bateu sua taça na minha, que ainda estava sobre
o balcão. “Um brinde a nós, os seriamente perturbados. Pelo menos temos um ao outro.”
Ele saiu da sala e eu desabei. Sabia que isso estava por vir — parecia tudo bom
demais para ser verdade. O bem-estar e a felicidade nunca duravam muito na minha vida, e nunca passavam de mera ilusão.
Sempre havia algo escondido nas entrelinhas, a postos para vir à tona e arruinar
tudo.
Joseph chegou bem na hora em que o jantar estava saindo do forno. Estava com um
terno embalado numa das mãos e um laptop numa maleta na outra. Estava preocupada que
ele fosse para casa depois da sessão com o dr. Petersen, e fiquei aliviada quando recebi sua ligação avisando que estava a caminho. Ainda assim, quando abri a porta e pus os olhos nele, senti um calafrio.
“Oi”, ele disse baixinho enquanto me seguia até a cozinha. “O cheiro aqui está uma
delícia.”
“Espero que você esteja com fome. Fiz um monte de comida, e acho que Cary não
vai aparecer para ajudar a comer.”
Joseph deixou suas coisas perto do balcão e foi até mim com passos cautelosos,
procurando meus olhos enquanto se aproximava. “Trouxe algumas coisas para passar a
noite aqui, mas posso ir embora se você quiser. A qualquer hora. É só dizer.”
Expirei em uma bufada, determinada a não deixar o medo comandar minhas ações.
“Quero que você fique.”
“E eu quero ficar.” Ele parou ao meu lado. “Posso te abraçar?”
Eu me virei para ele e o apertei bem forte. “Por favor.”
Joseph apertou o rosto contra o meu e me abraçou. Não era um abraço gostoso e
natural como de costume. Havia um desgaste entre nós, algo que nunca tínhamos
experimentado juntos.
“Como você está?”, ele murmurou.
“Melhor agora que você chegou.”
“Mas ainda está nervosa.” Ele beijou minha testa. “Eu também. Não sei como
vamos conseguir dormir juntos de novo.”
Recuando um pouco, olhei bem para ele. Era o que eu temia também, e minha
conversa com Cary não tinha ajudado muito. O cara é uma bomba-relógio...
“Nós damos um jeito”, respondi.
Ele ficou em silêncio por um bom tempo. “Nathan já tentou entrar em contato com
você?”
“Não.” Ainda assim, eu morria de medo de encontrá-lo de novo algum dia, fosse
por acidente ou deliberadamente. Ele estava em algum lugar do mundo, respirando o
mesmo ar que eu... “Por quê?”
“Fiquei pensando sobre isso hoje.”
Dei um passo atrás para olhar seu rosto, e senti um nó na garganta ao perceber como
estava chateado. “Por quê?”
“Porque existe um bocado de coisa entre nós.”
“Você está achando que é coisa demais?”
Ele sacudiu a cabeça. “Não consigo pensar assim.”
Eu não soube o que fazer, nem o que dizer. Que garantia poderia dar a ele se não
sabia que meu amor e a necessidade que ele sentia de ficar comigo seriam suficientes para fazer nossa relação dar certo?
“E você, está pensando em quê?”, ele perguntou.
“Na comida no forno. Estou morrendo de fome. Você pode perguntar a Cary se ele
quer comer? Depois podemos jantar.”
Cary estava dormindo, então Joseph e eu jantamos na mesa à luz de velas depois
que ele tomou banho, uma refeição um tanto formal para quem estava de camiseta velha e calça de pijama. Eu estava preocupada com Cary, mas precisava muito de um tempinho
tranquilo a sós com Joseph.
“Almocei com Magdalene no escritório ontem”, ele disse depois de começarmos a
comer.
“Ah, é?” Então quer dizer que, enquanto eu saía atrás de um anel, Magdalene Perez
estava a sós com meu namorado?
“Não precisa ficar assim”, ele me censurou. “Ela almoçou em um escritório
dominado por suas flores, com você me mandando beijinhos da minha mesa. Você estava
tão presente ali quanto ela.”
“Desculpe. O primeiro impulso é esse mesmo.”
Ele pegou minha mão e a beijou com força. “Fico aliviado por você ainda sentir
ciúmes de mim.”
Suspirei. Meus sentimentos ficaram à flor da pele durante o dia todo; não conseguia
me decidir sobre como me sentia a respeito de nada. “Você falou com ela sobre
Christopher?”
“Foi por isso que a chamei para almoçar. Mostrei o vídeo pra ela.”
“Quê?” Eu franzi a testa ao lembrar que meu telefone tinha ficado sem bateria no
carro. “Como você fez isso?”
“Levei seu celular pro escritório e passei o vídeo pro computador. Você não reparou
que eu o trouxe de volta pra cá ontem à noite, com a bateria carregada?”
“Não.” Larguei os talheres. Dominante ou não, Joseph precisava que alguns limites
bem claros para o espaço pessoal de cada um fossem estabelecidos. “Você não pode
simplesmente hackear meu celular, Joseph.”
“Não precisei hackear nada. Não tem senha.”
“Não importa! Isso é invasão de privacidade, porra. Minha nossa...” Por que
ninguém conseguia entender que eu tinha direito a meu espaço? “Você gostaria que eu
ficasse fuçando nas suas coisas?”
“Não tenho nada a esconder.” Ele tirou seu celular do bolso da calça de moletom e
entregou para mim. “E você também não deve ter.”
Eu não queria brigar num momento como aquele, em que as coisas estavam tão
abaladas entre nós, mas não dava mais para relevar o assunto. “Não interessa se tenho ou
não alguma coisa a esconder. Tenho direito ao meu espaço e à minha privacidade, e você
precisa pedir antes de ir atrás de informações a meu respeito e antes de mexer nas minhas coisas. Você precisa parar com essa mania de fazer de tudo sem minha permissão.”
“E o que aquele vídeo tinha a ver com privacidade?”, ele perguntou franzindo a
testa. “Foi você mesma que me mostrou.”
“Você está parecendo minha mãe, Joseph!”, eu gritei. “Uma maluca pra mim já
basta.”
Ele recuou diante de minha agressividade, claramente surpreso ao ver que eu estava
chateada de verdade. “Está certo. Desculpe.”
Dei um gole no vinho, lutando para recuperar a tranquilidade. “Está se desculpando
por ter me irritado? Ou por ter feito o que fez?”
Joseph demorou alguns instantes para responder. “Por ter irritado você.”
Ele não tinha entendido nada. “Você não consegue ver como isso é bizarro?”
“Demetria.” Ele suspirou e gesticulou. “Passo um tempão do meu dia dentro de você.
Quando você estabelece esses limites, só consigo ver como uma coisa arbitrária.”
“Pois não tem nada de arbitrário. É importante pra mim. Se você quiser saber alguma coisa a meu respeito, precisa me perguntar.”
“Certo.”
“Não faça mais isso”, avisei. “Não estou brincando, Joseph.”
Ele cerrou os dentes. “Está bem. Já entendi.”
Como eu realmente não estava a fim de brigar, retomei a conversa anterior. “O que
ela falou quando viu o vídeo?”
Ele relaxou visivelmente. “Foi difícil, é claro. Principalmente por saber que eu já
tinha visto.”
“Ela viu a gente na biblioteca.”
“Não tocamos nesse assunto diretamente, mas o que eu poderia dizer? Não vou me
desculpar por transar com minha namorada entre quatro paredes.” Ele se recostou na
cadeira e bufou. “Ver a cara de Christopher no vídeo... Ver exatamente o que ele pensa
dela... Foi isso que a magoou. É difícil descobrir que está sendo usado dessa forma.
Principalmente por alguém que você acha que conhece, que diz gostar de você.”
Para esconder minha reação, tratei de reabastecer as duas taças de vinho. Ele falou
como se já tivesse sentido aquilo na pele. O que exatamente teria acontecido com Joseph?
Depois de um rápido gole de vinho, perguntei: “E como você está lidando com
isso?”.
“O que posso fazer? Durante anos, tentei conversar com Christopher de todas as
maneiras. Já tentei dar dinheiro pra ele. Já tentei ameaçar meu irmão. Ele nunca mostrou o menor sinal de mudança. Percebi há muito tempo que o máximo que posso fazer é amenizar as consequências dos atos dele. E manter você à maior distância possível.”
“Agora que sei disso, vou fazer de tudo pra ficar longe.”
“Ótimo.” Ele deu um gole no vinho, olhando-me por cima da taça. “Você não me
perguntou como foi a consulta com o doutor Petersen.”
“Não é da minha conta. A não ser que você queira contar.” Olhei bem pra ele, na
esperança de que fizesse isso. “Estou aqui pra ouvir o que você quiser falar, mas não vou
ficar insistindo. Quando estiver pronto pra se abrir comigo, fique à vontade. Mas adoraria
saber se você gostou dele.”
“Por enquanto.” Joseph sorriu. “Ele me faz falar várias vezes a mesma coisa.
Poucas pessoas são capazes de me convencer disso.”
“Verdade. Ele faz a gente repensar e ver as coisas por outro ângulo, faz a gente
refletir sobre por que não pensou naquilo antes.’”
Os dedos de Joseph subiam e desciam pela haste da taça. “Ele me receitou um
remédio para tomar antes de ir pra cama. Comprei no caminho pra cá.”
“Como você se sente a respeito de tomar remédios?”
Ele me olhou com os olhos sombrios. “Acho que é algo necessário. Preciso de você
e quero mantê-la segura, custe o que custar. O doutor Petersen disse que esse medicamento, combinado a terapia, tem ótimo resultado no tratamento de casos de parassonia sexual atípica. Não tenho por que duvidar disso.”
Eu me inclinei para a frente e apertei sua mão. Tomar remédios era um grande
passo, principalmente para alguém que tinha evitado encarar o problema por tanto tempo.
“Obrigada.”
Joseph retribuiu o aperto com força. “Ao que parece existe um monte de gente com
esse problema em grupos de estudos do sono. Ele me contou sobre um caso documentado
de um homem que atacou a esposa durante o sono por doze anos antes de procurar ajuda.”
“Doze anos? Minha nossa.”
“Eles demoraram tanto assim porque pelo jeito o cara transava melhor dormindo
que acordado”, Gideon complementou, sarcástico. “Se isso não é motivo para destruir o ego de alguém, não sei o que é.”
Olhei bem nos olhos dele. “Que merda.”
“Pois é.” O sorriso irônico desapareceu de seu rosto. “Mas não quero forçar você a
dormir comigo, Demetria. Não existe remédio milagroso. Posso dormir no sofá ou ir pra casa, apesar de preferir o sofá. Meu dia fica melhor quando vamos juntos pro trabalho.”
“O meu também.”
Joseph pegou minha mão e a levou aos lábios. “Nunca imaginei que teria isso na
minha vida... Alguém que sabe tanto sobre mim como você. Alguém que consegue
conversar sobre meus traumas durante o jantar porque me aceita como sou... Muito
obrigado por você existir, Demetria.”
Meu coração quase parou, e uma dor gostosa se espalhou por meu peito. Ele sabia
mesmo como dizer coisas bonitas, perfeitas.
“Sinto a mesma coisa por você, figurão.” E talvez mais, porque eu o amava. Mas
não disse isso em voz alta. Algum dia ele chegaria lá. Eu não desistiria enquanto ele não
fosse absoluta e irrevogavelmente meu.
Com os pés descalços sobre a mesa de centro e o computador no colo, Joseph
parecia tão à vontade e relaxado que eu não conseguia prestar atenção na tevê.
Como chegamos até aqui?, perguntei-me mentalmente. Esse homem absurdamente
sexy e eu?
“O que você está olhando?”, ele murmurou sem tirar os olhos da tela do laptop.
Mostrei a língua para ele.
“Está se insinuando sexualmente pra mim, senhorita Lovato?”
“Como você consegue me ver enquanto está vidrado aí no computador?”
Ele desviou sua atenção da tela. Seus olhos azuis irradiavam poder e tesão. “Vejo
você o tempo todo, meu anjo. Desde que nos encontramos pela primeira vez. Não tenho
olhos pra mais nada além de você.”
A quarta-feira começou com o pau de Joseph me penetrando por trás, meu novo
jeito favorito de acordar.
“Ora, ora”, eu disse com a voz rouca, esfregando os olhos para espantar o sono
enquanto seu braço envolvia minha cintura e me puxava para mais perto de seu peito
quente e forte. “Você está animadinho esta manhã.”
“E você está linda e gostosa todas as manhãs”, ele murmurou, mordendo meu
ombro. “Adoro acordar ao seu lado.”
Comemoramos a noite ininterrupta com uma bela sessão de orgasmos.
Bem mais tarde naquele dia, fui almoçar com Mark e seu companheiro Steven em
um restaurante mexicano delicioso escondido sob o nível da rua. Ao descer apenas alguns
degraus de cimento, encontramos um restaurante surpreendentemente espaçoso e
iluminado, com garçons e garçonetes muito bem vestidos.
“Você precisa vir aqui qualquer dia com seu namorado”, comentou Steven, “e pedir para ele te pagar uma margarita de romã.”
“É boa?”, perguntei.
“Ô, se é.”
Quando a garçonete veio tirar nosso pedido, começou a paquerar descaradamente
Mark, usando e abusando de seus olhos com cílios longos de fazer inveja. Mark entrou na
dela. À medida que o tempo passava, a ruiva exuberante — cujo crachá informava que se
chamava Shawna — foi ficando mais ousada, acariciando os ombros e a nuca dele toda vez que passava pela mesa. Ao mesmo tempo, as respostas de Mark foram ficando mais
sugestivas, a ponto de olhar para Steven e ver seu rosto ficar vermelho e sua expressão
mudar. Remexendo-me o tempo todo na cadeira, eu estava contando os minutos para que
aquela refeição carregada de tensão terminasse logo.
“Vamos sair juntos hoje à noite”, Shawna disse para Mark ao trazer a conta. “Uma
noite comigo e você está curado.”
Prendi a respiração. Não podia acreditar no que estava ouvindo.
“Às sete horas está bom pra você?”, perguntou Mark em um tom de voz sedutor.
“Vou acabar com você, Shawna. Você nem imagina quanto tempo faz que...”
Engasguei com a água e comecei a tossir.
Steven levantou correndo e foi até o outro lado da mesa bater nas minhas costas.
“Que coisa, Demetria”, ele falou, aos risos. “Estamos só brincando com você. Não precisa se matar por nossa causa.”
“Quê?”, perguntei quase sem fôlego, com os olhos cheios de lágrimas.
Sorrindo, ele passou por trás de mim e abraçou a garçonete. “Demetria, essa é minha irmã Shawna. Shawna, Demetria é aquela que eu falei que está facilitando a vida de Mark.”
“Que ótimo”, disse Shawna, “já que você não facilita a vida dele em nada.”
Steven piscou para mim. “É por isso que ele não me larga.”
Vendo os irmãos lado a lado, enfim captei a semelhança, que até então havia
passado despercebida. Recostei-me na cadeira e estreitei os olhos para Mark. “Isso foi
golpe baixo. Pensei que Steven fosse ter um ataque.”
Mark levantou as mãos em sinal de rendição. “Foi ideia dele. Steven adora um
drama, você sabe.”
Ele sorriu e rebateu: “Ora, Demetria, você sabe que Mark é o mentor intelectual do nosso relacionamento...”.
Shawna tirou um cartão de visitas do bolso e entregou para mim. “Meu número está
no verso. Dê uma ligadinha pra mim quando puder. Conheço os podres desses dois. Você
pode dar o troco em grande estilo.”
“Traidora”, acusou Steven.
“Ei”, Shawna encolheu os ombros. “As mulheres precisam se unir.”
Depois do trabalho, Joseph e eu fomos à academia dele. Angus nos deixou bem na
frente e, quando entramos, o lugar estava bombando; até o vestiário estava lotado. Eu me troquei, guardei minhas coisas e encontrei Joseph no corredor.
Acenei para Daniel, o instrutor com quem havia conversado na primeira visita à
CrossTrainer, e levei um tapa na bunda por isso.
“Ei”, protestei, devolvendo o tapa na mão repressora de Joseph. “Pare com isso.”
Ele puxou meu rabo de cavalo, forçando minha cabeça para trás, e marcou seu
território me dando um beijo profundo e lascivo.
O jeito como ele puxou meu cabelo me deixou toda arrepiada. “Se essa é sua ideia
de reprimenda”, sussurrei com os lábios bem próximos dos dele, “fique sabendo que parece mais um incentivo.”
“Estou disposto a pegar mais pesado, se necessário.” Ele mordeu meu lábio inferior.
“Mas sugiro que você não teste meus limites dessa maneira, Demetria.”
“Não se preocupe. Tenho outras maneiras de fazer isso.”
Joseph foi correr na esteira primeiro, proporcionando-me o prazer de ver seu corpo
brilhando de suor... em público. Por mais que eu o visse assim o tempo todo em particular, era sempre uma visão e tanto.
E, minha nossa, como ele ficava lindo com o cabelo todo para trás... Seus músculos
flexionados sob a pele levemente bronzeada... A graciosidade poderosa de seus
movimentos... Ver aquele homem elegantérrimo tirar o terno e mostrar seu lado animal me deixava cheia de tesão.
Eu não conseguia parar de olhar, e ainda bem que não precisava. Ele era meu, afinal
de contas, uma constatação que fez um calor subir por meu corpo. Além disso, as outras
mulheres da academia estavam fazendo o mesmo. Quando ele trocava de aparelho, dezenas de olhos admirados o seguiam.
Quando ele me surpreendia nesses momentos, eu lançava um olhar sugestivo e
passava a língua pelos lábios. Sua sobrancelha erguida e seu meio-sorriso perverso me
provocaram um frio na barriga. Não me lembro de algum dia ter tido tanta disposição para malhar. Uma hora e meia passavam voando.
Quando voltamos para o Bentley a caminho da cobertura, eu não conseguia parar
quieta no assento. Lançava olhares e mais olhares insinuantes para Joseph.
Ele segurou minha mão. “Você vai ter que esperar.”
Tomei um susto ao ouvir aquilo. “Quê?”
“Você ouviu muito bem.” Ele beijou meus dedos e teve a cara de pau de abrir um
sorriso pervertido. “Vamos prolongar o estado de excitação, meu anjo.”
“E por que faríamos isso?”
“Imagine o quanto vamos estar malucos um pelo outro depois do jantar.”
Cheguei mais perto para que Angus não me ouvisse, apesar de saber que ele era
profissional o bastante para ignorar nossas conversas. “A gente nem precisa prolongar a
espera pra ficar maluco...”
Mas ele não cedeu. Em vez disso, deu início a um processo de tortura. Despimos um
ao outro e entramos no chuveiro, acariciando as curvas e as reentrâncias de nossos corpos.
Depois nos vestimos para o jantar. Ele estava todo formal, mas dispensou a gravata. Sua
camisa imaculadamente branca estava aberta no colarinho, revelando um pouco de pele. O vestido que ele reservou para mim era um Vera Wang champanhe com bustiê sem alça,
costas abertas e uma saia pregada que ia até um pouco acima dos joelhos.
Sorri quando ele olhou para mim, sabendo que ficaria maluco me vendo naquele
vestido a noite inteira. Era maravilhoso e eu tinha adorado, mas foi feito para ser usado por modelos bem altas e magras, e não por mulheres baixinhas e cheias de curvas. Em um
acesso de vergonha, eu havia deixado meu cabelo cair por cima dos seios, mas não tinha
adiantado muito, conforme a expressão de Joseph indicava.
“Minha nossa, Demetria.” Ele se ajeitou dentro da calça. “Mudei de ideia sobre o vestido. Você não deveria usar isso em público.”
“Agora é tarde demais pra mudar de ideia.”
“Pensei que ele tivesse mais pano que isso.”
Encolhi os ombros, sorrindo. “Não posso fazer nada. Foi você que comprou.”
“Mas eu me arrependi. Quanto tempo você demora pra tirar?”
Passando a língua pelo lábio, respondi. “Não sei. Por que você não tenta descobrir?”
Ele ficou sério. “Nós nem sairíamos de casa se eu fizesse isso.”
“Eu não ia reclamar.” Ele estava lindo, e eu — como sempre — morria de tesão.
“Não tem um casaco que você possa vestir por cima? Uma parca, talvez? Ou um
sobretudo?”
Aos risos, peguei minha bolsinha de mão na gaveta e dei o braço para ele. “Não se
preocupe. Vai estar todo mundo ocupado demais olhando pra você. Ninguém vai nem
reparar em mim.”
Ele me olhou feio quando o arrastei para fora do quarto. “Estou falando sério. Seus
peitos cresceram? Eles estão quase pulando pra fora da roupa.”
“Tenho vinte e quatro anos, Joseph”, eu disse, irônica. “Já parei de me desenvolver
faz tempo. Você está me vendo como sou.”
“Sim, mas eu deveria ser o único a ver, já que sou o único que tem acesso liberado a
você.”
Quando chegamos à sala, durante o tempinho mínimo que demoramos para ir até o
elevador, admirei a beleza sóbria da casa de Joseph. Era deliciosamente acolhedora. O
charme europeu da decoração em estilo antigo era para lá de elegante, além de muito
confortável. A vista magnífica das janelas com arcadas complementava o ambiente, sem
destoar dele.
A mistura de tons escuros de madeira e de pedra, cores vivas e toques vívidos de
joias era claramente um luxo dos mais caros, assim como as obras de arte penduradas na
parede, mas de muito bom gosto. Ali ninguém se sentiria temeroso de tocar nas coisas, ou
pouco à vontade na hora de se sentar, com medo de estragar alguma antiguidade. A casa
dele não era esse tipo de lugar.
Entramos no elevador privativo e Joseph me encarou quando as portas se fecharam.
Ele foi logo tentando puxar meu vestido para cima.
“Se você puxar muito”, avisei, “logo mais o que vai aparecer vai ser minha
calcinha.”
“Droga.”
“Isso pode ser divertido. Posso fazer o papel da loirinha piranha que só quer saber
do seu pau e do seu dinheiro, e você pode fazer seu próprio papel — do playboy bilionário exibindo o brinquedinho novo. É só parecer entediado e tolerante enquanto eu me esfrego em você e fico tagarelando sobre suas imensas qualidades.”
“Isso não tem graça.” Logo depois seus olhos brilharam. “Que tal uma echarpe?”
Quando chegamos ao jantar em benefício da construção de um abrigo de
emergência para mulheres e crianças vítimas de abuso, tivemos que passar por um tapete
vermelho repleto de fotógrafos, o que me provocou uma crise de medo do excesso de
exposição. Concentrei-me em Joseph, porque nada era melhor para me fazer esquecer de todo o resto do que ele. E, exatamente por estar prestando tanta atenção nele, pude ver quando o homem que me levou até ali se transfigurou em sua persona pública.
A máscara cobriu seu rosto com naturalidade. Seus olhos perderam o brilho, sua
boca sensual ficou séria. Dava quase para sentir seu poder de isolamento envolvendo nós
dois. Havia um escudo entre nós e o restante do mundo, simplesmente porque aquela era a vontade dele. Caminhando ao seu lado, eu sabia que alguém só teria coragem de se
aproximar caso recebesse algum sinal de aprovação expressa.
Mas o aviso de “mantenha distância” não se estendia aos olhares. Joseph fez os
pescoços se torcerem ao entrar no salão. Eu me contraí toda ao notar a atenção que ele
estava atraindo, enquanto permanecia impassível.
Se eu tinha em mente ficar tagarelando sobre Joseph enquanto me esfregava nele,
era melhor entrar na fila. No momento exato em que paramos de andar, fomos cercados por todos os lados. Eu me afastei para abrir espaço àquelas pessoas ansiosas por sua atenção e circulei por ali à procura de uma taça de champanhe. A Waters Field & Leaman tinha participado da campanha de divulgação do evento criando um anúncio, e eu vi por ali alguns rostos conhecidos.
Tinha acabado de tirar uma taça da bandeja de um garçom que passava por ali
quando ouvi alguém chamar meu nome. Ao me virar, dei de cara com o sobrinho de
Stanton e seu enorme sorriso, seus cabelos escuros e seus olhos verdes. Ele era mais ou
menos da minha idade. Tínhamos nos conhecido em uma das visitas à minha mãe durante
as férias da faculdade, e fiquei feliz em vê-lo.
“Martin!” Eu o cumprimentei com um rápido abraço. “Como vão as coisas? Você
está um gato.”
“Eu ia dizer a mesma coisa.” Ele me olhou, apreciando meu vestido. “Ouvi dizer
que você tinha se mudado pra Nova York e estava querendo te encontrar. Faz tempo que
está aqui?”
“Não muito. Algumas semanas.”
“Termine seu champanhe e vamos dançar”, ele disse.
O espumante ainda estava borbulhando alegremente pelo meu corpo quando fomos
para a pista de dança ao som de Billie Holiday cantando “Summertime”.
“E então”, ele começou, “está trabalhando?”
Enquanto dançávamos, contei sobre meu emprego e perguntei o que ele estava
fazendo. Não fiquei nada surpresa ao ouvir que ele trabalhava no banco de investimentos de Stanton e estava se saindo muito bem.
“Adoraria ir até Manhattan um dia desses almoçar com você”, ele disse.
“Seria ótimo.” Dei um passo atrás quando a música terminou e acabei esbarrando
em alguém. Suas mãos agarraram minha cintura para que eu não me desequilibrasse, e
quando olhei sobre os ombros vi que era Joseph.
“Olá”, ele cumprimentou, lançando um olhar gelado para Martin. “Nos apresente.”
“Joseph, esse é Martin Stanton. Nós nos conhecemos há um bom tempo. Ele é
sobrinho do meu padrasto.” Respirei fundo antes de continuar. “Martin, esse é o homem da minha vida no momento, Joseph Jonas.”
“Jonas.” Martin sorriu e estendeu a mão. “Sei quem você é, claro. Prazer em
conhecer. Pelo jeito, em breve vou começar a encontrar vocês nas reuniões de família.”
Joseph apoiou o braço no meu ombro. “Pode contar com isso.”
Martin foi chamado por algum conhecido, e se inclinou para a frente para me dar
um beijo na bochecha. “Eu ligo para combinar aquele almoço. Semana que vem, pode ser?”
“Claro.” Eu sentia toda a energia de Joseph pulsando bem ao meu lado, mas,
quando me virei, ele parecia tranquilo e impassível.
Joseph me tirou para dançar ao som de “What a Wonderful World”, na voz de
Louis Armstrong. “Não sei se gostei dele”, murmurou.
“Martin é um cara legal.”
“Desde que ele saiba que você é minha...” Ele me deu um beijo na testa e
posicionou sua mão no decote nas costas do meu vestido, pele com pele. Segurando-me
daquele jeito, ninguém ousaria duvidar que eu pertencia a ele.
Gostei da oportunidade de ficar tão próxima de seu corpo maravilhoso em público.
Respirando bem perto dele, deixei-me levar por sua conduta firme. “Adoro isso.”
Acariciando-me com o rosto, ele murmurou: “E é pra gostar mesmo”.
Uma enorme alegria. Durou o mesmo tempo que a dança.
Estávamos saindo da pista quando vi Magdalene parada em um canto. Demorei um
tempo para reconhecê-la, porque ela havia cortado o cabelo curtinho. Estava elegante e
cheia de classe em seu vestidinho preto, mas era totalmente eclipsada pela morena
lindíssima com quem conversava.
Joseph hesitou diante delas, reduzindo um pouco o ritmo da passada antes de seguir
adiante. Eu estava olhando para baixo, imaginando que havia algum obstáculo no chão,
quando ele disse baixinho: “Preciso apresentar você a alguém”.
Voltei a prestar atenção ao lugar para onde nos dirigíamos. A mulher ao lado de
Magdalene viu Joseph e se virou para olhá-lo. Senti seu antebraço se enrijecer sob meus
dedos no instante em que seus olhares se encontraram.
Dava para entender por quê.
Fosse quem fosse, aquela mulher estava completamente apaixonada por ele. Isso
estava estampado em seu rosto e em seus magníficos olhos azuis. Sua beleza era
estonteante, quase surreal. Seus cabelos eram pretíssimos, grossos e lisos, e iam quase até a cintura. Seu vestido tinha o mesmo tom glacial de seus olhos, envolvendo seu corpo
longilíneo de curvas perfeitas e sua pele dourada, bronzeada de sol.
“Corinne”, ele a saudou, e a rouquidão natural de sua voz se tornou ainda mais
pronunciada. Ele me soltou e pegou as mãos dela. “Você não me disse que já estava de
volta. Eu teria ido te buscar.”
“Deixei algumas mensagens no seu telefone”, ela disse, com o tom de voz tranquilo
de uma pessoa culta e bem-educada.
“Ah, eu quase não parei em casa ultimamente.” Isso fez Joseph lembrar que eu
estava ao seu lado, e ele a soltou e me puxou mais para perto. “Corinne, esta é Demetria Lovato.
Demetria, Corinne Giroux. Uma velha amiga.”
Estendi a mão e ela me cumprimentou.
“Qualquer amiga de Joseph é amiga minha também”, ela disse com um sorriso
ameno no rosto.
“Espero que isso se aplique a namoradas também.”
Ela me olhou como se já soubesse de tudo. “Principalmente a namoradas. Se você
me permitir, gostaria de apresentar Joseph a uma pessoa.”
“Claro.” Minha voz soava calma e controlada, mas eu estava bem longe disso.
Ele me deu um beijo indiferente na testa e ofereceu o braço a Corinne antes de se
afastar com ela, deixando-me embaraçosamente ao lado de Magdalene.
Senti pena dela, sinceramente. Parecia abandonada e desolada. “Seu cabelo ficou
uma graça, Magdalene.”
Ela olhou para mim sem abrir a boca, mas depois atenuou a situação com um
suspiro que me pareceu carregado de resignação. “Obrigada. Estava na hora de mudar.
Muitas coisas, aliás. Além disso, não havia por que continuar imitando o visual dela agora
que voltou.”
Franzi a testa, confusa. “Não entendi.”
“Estou falando de Corinne.” Ela olhou bem para mim. “Ah, você não sabe. Ela e
Joseph foram noivos por mais de um ano. Ela terminou tudo, casou com um ricaço francês
e se mudou para a Europa. Mas o casamento não deu certo. Eles estão se divorciando, e ela voltou pra Nova York.”
Noivo. Senti meu rosto ficar pálido e meu olhar se dirigir para o homem que eu
amava, ao lado da mulher que um dia ele havia amado, com as mãos na parte inferior de
suas costas para conduzi-la enquanto ela se inclinava em sua direção aos risos.
Senti meu estômago se revirar de ciúme e de medo, e foi quando me dei conta de
que nunca havia me perguntado se ele já havia tido uma relação romântica antes de mim.
Idiota. Lindo como era, eu deveria ter imaginado.
Magdalene pôs a mão no meu ombro. “É melhor você se sentar, Demetria. Está pálida.”
Eu estava mesmo ofegante, com os batimentos cardíacos perigosamente acelerados.
“Verdade.”
Sentei na primeira cadeira que encontrei. Magdalene se acomodou ao meu lado.
“Você está apaixonada por ele”, ela disse. “Eu não sabia. Desculpe. E desculpe pelo
que disse a você no dia em que nos conhecemos.”
“Você também está apaixonada por ele”, respondi, sem nenhuma emoção, com os
olhos fora de foco. “E naquela época eu não estava. Ainda não.”
“Isso não justifica o que eu fiz.”
Aceitei de bom grado uma taça de champanhe e peguei uma para Magdalene antes
que o garçom se afastasse. Brindamos em um gesto patético de solidariedade feminina. Eu queria sumir dali. Queria levantar e ir embora. Queria que Joseph percebesse que eu tinha ido, e que fosse atrás de mim. Queria que ele sentisse a mesma dor que eu. Ideias idiotas, imaturas e dolorosas povoavam minha mente e faziam com que eu me sentisse a mais insignificante das mulheres.
Consolei-me com o fato de Magdalene estar ali comigo. Ela sabia o que significava
ser apaixonada demais por Joseph. Senti que ela estava tão infeliz quanto eu, o que só
confirmava o tamanho da ameaça representada por Corinne.
Ele estava sofrendo esse tempo todo por ela? Era por isso que tinha se fechado de
tal forma para outras mulheres?
“Aí está você.”
Olhei para Joseph quando ele me encontrou. Obviamente, Corinne ainda estava
pendurada em seu braço, e pude observar bem o efeito que causavam como um casal. Eles ficavam insuportavelmente maravilhosos juntos.
Corinne se sentou ao meu lado e Joseph acariciou meu rosto com os dedos.
“Preciso ir falar com uma pessoa”, ele disse. “Quer que eu traga alguma coisa pra você na
volta?”
“Stoli com suco de cranberry. Dose dupla.” Eu precisava de alguma coisa para me
entorpecer. E muito.
“Certo.” Ele franziu a testa antes de se afastar.
“Estou tão feliz em te conhecer, Demetria”, disse Corinne. “Joseph falou muito sobre
você.”
“Não pode ter sido tanto assim. Vocês mal tiveram tempo de conversar.”
“Conversamos quase todos os dias.” Ela sorriu, e não havia nada de falso ou
malicioso em seu rosto. “Somos amigos há muito tempo.”
“Mais que amigos”, Magdalene fez questão de dizer.
Corinne olhou feio para Magdalene, e eu percebi que sua intenção era esconder essa informação de mim. Teria sido ideia dela ou de Joseph, ou dos dois em comum acordo?
Por que omitir algo se não havia nada a esconder?
“Sim, é verdade”, ela admitiu, visivelmente relutante. “Mas já faz alguns anos.”
Eu me virei na cadeira para encará-la. “Você ainda é apaixonada por ele.”
“Bom, você não pode me culpar. Qualquer mulher que passa algum tempo com ele
acaba apaixonada. Ele é lindo e inacessível. Uma combinação irresistível.” Seu sorriso
arrefeceu. “Joseph me disse que você o encorajou a começar a se abrir mais. Agradeço por isso.”
Por pouco não respondi: Não fiz isso pra você. Foi quando uma dúvida insidiosa se
instalou na minha cabeça, abrindo espaço para que uma de minhas vulnerabilidades
tomasse conta de meu pensamento.
E se eu tiver feito isso para ela sem saber?
Eu girava sem parar a base da taça vazia de champanhe sobre a mesa. “Ele ia casar
com você.”
“E foi o maior erro da minha vida ter terminado tudo.” Ela pôs a mão sobre a
garganta. Seus dedos se mexiam sem parar, como se brincassem com um colar que na
maior parte do tempo estava lá. “Eu era jovem, e em certas situações tinha medo dele. Era possessivo demais. Só depois de me casar descobri que a possessividade é melhor que a indiferença. Pelo menos pra mim.”
Olhei para o outro lado, lutando contra a ânsia de vômito que subia por minha
garganta.
“Você está tão quieta”, ela comentou.
“O que ela poderia dizer?”, soltou Magdalene.
Estávamos todas apaixonadas por ele. E disponíveis para ele. No fim, Joseph teria
que escolher uma de nós.
“Uma coisa você deve saber, Demetria”, recomeçou Corinne, lançando sobre mim seus
olhos límpidos verde-azulados, “ele me contou o quanto te considera especial. Precisei de um tempo para tomar coragem de voltar e ver vocês juntos. Cheguei inclusive a cancelar a viagem umas duas semanas atrás. Liguei para Joseph no meio de um evento em que ele daria um discurso, coitadinho, pra dizer que estava voltando e precisava de ajuda pra me instalar aqui.”
Fiquei paralisada, sentindo-me frágil como uma taça de cristal rachada. Ela devia
estar falando da noite em que Joseph e eu fizemos sexo pela primeira vez. Da noite em que estreamos sua limusine e ele imediatamente se retraiu todo, deixando-me sozinha logo depois.
“Quando ele me ligou de volta”, ela continuou, “disse que tinha conhecido alguém.
Que queria me apresentar a você quando eu chegasse. Acabei me acovardando. Ele nunca
havia me pedido pra conhecer uma mulher com quem estava.”
Ai, meu Deus. Dei uma olhada de relance para Magdalene. Joseph tinha me
abandonado naquela noite por causa dela. De Corinne.
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